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quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Movimentos e bandeiras

Fui questionado ontem à tarde sobre um problema intrigante. Ouvi de um jornalista amigo que o movimento dos sem-teto de sua cidade estava muito preocupado. Não tinha uma bandeira. Não entendamos como bandeira o conjunto de ideologias, mas o próprio estandarte. Não tem um símbolo para suas reivindicações. Na ausência de um próprio, apressaram-se usando a bandeira de outro emprestada, logo o movimento sem-terra da bandeira emprestada queria tomar posse dos prédios ocupados pelos sem-teto.

A ajuda solicitada e a negação dizem muito sobre o momento político que vivemos. Foi pedido que eu ajudasse na elaboração dos símbolos da bandeira. É um convite que muito me honra, mas impossível de ser atendido. Se não faço parte do movimento, se não tenho acompanhado suas lutas lado a lado, escolher a iconografia mais precisa seria um mistério. Alguém poderia dizer que publicitários vivem de agir assim, contratados para resumir a uma imagem toda uma marca. Incluem nas suas ações novos símbolos para partidos políticos, buscando renovar suas identidades. Não se sabe de qualquer papel ideológico significativo na intervenção de comunicólogos na política nacional mais recente por meio dos seus símbolos.


Na idéia de intelectual coletivo, Antonio Gramsci explorou esse problema. A reflexão viva daqueles que são intérpretes por serem partícipes de determinada ação coletiva habilitam-nos a falar em nome da coletividade. Não toda a história do movimento, mas toda a história que o movimento legitima, valoriza, poderá ser levantada no mastro se aqueles que preparam o desenho fizerem parte das próprias lutas.

Não é à toa que os estados brasileiros que tiveram relevantes insurreições beberam na Revolução Franesa para a elaboração de suas bandeiras. Era uma iniciativa, na maioria das vezes, da burguesia local em defesa de seus próprios valores. A identidade com a revolução burguesa francesa não bastava para seu êxito, tanto que não foram vitoriosas, mas alimentou símbolos tão fortes que permanecem legitimando a história local.

A recomendação que pude transmitir, e quem discordar por favor comente aqui para que meu amigo possa receber novas sugestões, foi que usassem a bandeira da cidade. É um movimento urbano, de moradores locais, que, aparentemente, desfruta da simpatia (ou pelo menos da tolerância) da prefeitura. Para que permaneçam onde estão, pode ser relevante o reconhecimento dos moradores do bairro, da cidade. Então, usar os símbolos locais pode ser uma saída estratégica válida para a legitimação política das reivindicações, com o reconhecimento da comunidade.

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