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quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Estão atirando em todos nós

Cícero Ferreira de Albuquerque *


No mês de julho passado os quatro movimentos que lutam por terra, educação, saúde, justiça e liberdade – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Comissão Pastoral da Terra (CPT), Movimento de Libertação dos Sem Terra (MLST) e Movimento Terra, Trabalho e Liberdade (MTL) – desenvolveram um conjunto de ações em todo o Estado de Alagoas. As mobilizações, ocorridas em diferentes pontos do nosso território, foram realizadas particularmente por cada movimento ou aconteceram de forma articulada, haja vista que muitas bandeiras de luta eram comuns. Algumas dessas ações tiveram ampla repercussão nacional.

Os resultados positivos das mobilizações ainda não estão todos claros, apesar de algumas conquistas pontuais já terem se dado; a principal delas, sem dúvida, é a intervenção feita pela Corregedoria do Poder Judiciário no cartório de registro de imóveis de Murici, denunciado por envolvimento em grilagem de terra na região. Sendo as apurações sérias, e comprovadas as denúncias realizadas pelas lideranças dos movimentos, o efeito pedagógico da intervenção será imenso no sentido de inibir outras ações irregulares, bem como permitirá a correção das irregularidades e a punição dos envolvidos.

Mas as ações de julho certamente não ficariam impunes. Uma primeira resposta trágica já foi dada: no último dia 3, em Delmiro Gouveia, Iranildo Manoel, integrante do MST na região sertaneja, foi alvejado com cinco tiros numa emboscada. Nininho, como é conhecido, milagrosamente não corre mais risco de morte, mas engrossa a triste estatística das vítimas de violência no Estado, sendo que a violência sofrida por ele é claramente uma violência política, com conteúdo de luta de classe.

Outras retaliações estão anunciadas. Os nossos coronéis, senhores da vida e da morte, homens da tabica, do chicote e da espingarda, pronunciam os seus impropérios, arrotam valentia pelos quatro cantos do Estado. Assim como Iranildo Manoel, as demais lideranças dos trabalhadores rurais estão sob risco. É preciso lançar um alerta para que as autoridades responsáveis se antecipem aos fatos.

Os disparos dados contra Iranildo Manoel foram disparos dados contra todos nós que sonhamos e lutamos por uma sociedade mais justa. Não queremos nossa terra ainda mais manchada de sangue, nem queremos ser manchete nacional e internacional como foi o Pará, com a morte da irmã Dorothy Stang ou o Acre, com o assassinato de Chico Mendes. E temos lideranças populares com grande expressão. O que seria um atentado contra a vida de um líder pastoral, por exemplo? Seria um atentado contra o nosso arcebispo Dom Muniz, contra cada padre, contra cada irmã, contra todos os leigos, enfim, contra todos os verdadeiros cristãos de Alagoas, do Brasil e do mundo. E contra cada um nós, cristão ou não, defensor ou não da reforma agrária, membro ou não de um movimento social. A violência e a impunidade que aqui imperam ameaçam a todos nós e devemos nos prevenir delas

Não custa lembrar que o atual governador foi eleito empunhando a bandeira do combate à violência. Quem lembra da campanha eleitoral sabe o quanto esse tema foi repetido. Sabemos da complexidade que envolve a questão da segurança pública em todo o país, mas cabe-nos alertar e exigir que providências sejam tomadas para evitar novos atentados. Se algo de grave acontecer contra qualquer liderança, não será difícil saber quem serão os mandantes, e as responsabilidades serão imputadas ao governo do Estado.

A organização e a mobilização popular são legítimas e imprescindíveis dentro de uma sociedade democrática. Entre outras coisas, é porque o povo pode mobilizar-se, reivindicar os seus direitos que podemos dizer que vivemos numa sociedade com algum conteúdo de democracia. Não surpreende que as nossas elites econômicas e políticas procurem desqualificar e esvaziar o sentido das mobilizações que ameaçam as estruturas injustas da nossa sociedade; o problema é que tais pessoas sentem-se livres para projetar e muitas vezes realizar impunemente atos de violência. Nossa bandeira é a da defesa da vida – e da vida com dignidade.


*Historiador e Sociólogo. Enviado com exclusividade para este blog

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