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domingo, 8 de julho de 2007

Live Earth

Estimativas dizem que o Live Earth levou 400.000 pessoas para a praia de Copacabana. Segundo talvez dissesse Al Gore (seu idealizador), haveria ali uma grande mobilização contra a emissão de gases tóxicos e o aquecimento global. No mesmo dia, o Cristo Redentor foi anunciado como sendo uma das novas Sete Maravilhas do Mundo. Começam também logo as atividades do Pan.

Sobre a segunda notícia, o turismo do Rio tentará comemorar. Sobre a terceira notícia, também. Mas como medir o impacto destes fatos numa cidade que já é símbolo do Brasil no mundo. Sobre a primeira notícia, tudo é mais complicado. O Live Earth, como tantos outros shows em defesa de causas nobres que ocorreram nas últimas décadas, não serve bem para promover as carreiras dos músicos, normalmente já consagrados antes de lá se apresentar. Tentar conscientizar por meio de músicas é, no máximo, exercício didático cansativo. Afinal, o que aqueles músicos têm feito, além da autopromoção passageira dos megashows, contra o aquecimento global? Que contribuições suas músicas trarão à mobilização de 400.000 pessoas? Destas 400.000, quantas foram atrás de mensagens ambientalistas e quantas aproveitaram o show gratuito?

Os shows ocorreram em nove cidades de oito países distribuídos nas 24h do dia 7 de julho. Além do Rio, participam Nova York e Washington (EUA), Londres (Reino Unido), Sidney (Austrália), Tóquio (Japão), Xangai (China), Johannesburgo (África do Sul) e Hamburgo (Alemanha), além da Antártida, que teve um show especial da banda Nunatak. No Brasil, serviu como festa para o lançamento do Cristo como Maravilha do Mundo; os turistas agradecem. Na China, infelizmente a população local certamente não pôde protestar contra o Aquecimento Global produzido pela indústria chinesa. Na Alemanha, predominaram apresentações latinas, então os alemães podem ter protestado contra o Aquecimento Global, mas não entenderam as palavras de ordem. No Japão e Nos Estados Unidos, é interessante conferir a poluição dos patrocinadores dos exibidores dos shows na TV, mas Al Gore agradece os direitos de transmissão. Quanto ao show "especial" na Antártida, os pingüins agradecem.

Melhores eram os tempos em que a mensagem era direta e sincera: "It´s only Rock and Roll but I like it" (É só um Rock mas eu gosto), como diz uma canção dos Rolling Stones. Na Folha de São Paulo de hoje, o baterista do Arctic Monkeys, criticou de forma coerente a iniciativa: "É um pouco de paternalismo para nós, aos 21 anos, tentar iniciar uma mudança no mundo", afirmou o baterista do Arctic Monkeys, Matt Helders. "Especialmente quando utilizamos tanta energia como em dez casas para iluminar um palco. Seria algo hipócrita."

Outras críticas consistentes foram feitas. Roger Daltrey, do The Who: "a última coisa que o mundo precisa é de um show de rock". Neil Tennant, dos Pet Shop Boys, também é crítico em relação à idéia. "Eu sempre fui contra a idéia de que as estrelas do rock dêem lições, como se soubessem algo que os demais ignoram".

Bob Geldof idealizou o Live Aid e o Live 8, respectivamente de 1985 e do ano passado. Em ambos, seu objetivo era alertar sobre causas pouco comentadas no mundo. Al Gore criou o Live Earth após ter ganho o Oscar com um documentário sobre o Aquecimento Global, dar palestras em meio mundo e ter espaço privilegiado em quase toda a mídia na condição de ex-vice-presidente dos Estados Unidos. A causa, como observa Bob Geldof, dispensa o alerta via shows, pois já é bastante divulgada, e não tem objetivos claros para seus envolvidos.

Porém, com certeza os DVDs das apresentações no show serão muito vendidos, toda a renda será revertida para uma causa nobre e tudo será esquecido nos próximos meses. São necessárias iniciativas políticas com objetivos sólidos a curto, médio e longo prazo. Juntar celebridades milionárias garante apenas um showmício de gigantescas proporções.

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