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sábado, 16 de junho de 2007

Meu pai morreu na última quarta-feira.

Ele terá duas Missas de Ação de Graças. As duas serão na terça-feira (dia 19), às 19:00h.

Em Recife, será na Igreja de Santa Edvirgens, no Prado. Fica por trás do Habib's.

Em Maceió, será na Igreja do Divino Espírito Santo, na Jatiúca. Basta seguir a Av. Amélia Rosa.

Desde antes de me entender por gente, era engraçado vê-lo atender o telefone dizendo “Diga, meu irmãozinho”. Podia ser um cliente, parente, sempre seria um amigo para a pessoa. Um irmãozinho, devido ao carinho com que resolveria os problemas de quem estivesse por perto. E de quem estivesse longe também. Meu pai deveria ter sido bombeiro. Não ficava satisfeito enquanto não resolvesse todos os problemas dos irmãozinhos e irmãzinhas ao redor.

Durante o enterro, um desses grandes irmãozinhos dele, que trabalhava com ele, disse para mim “Vou sentir falta dele atendendo o telefone dizendo ‘Diga meu irmãozinho’". Já era uma marca de alguém que, como um amigo disse, irradiava alegria. E como irradiava. Mesmo os funcionários do cemitério e da casa funerária tinham aquele olhar entre perdidos procurando alguém, de quem perdeu um irmãozinho. O rosto dele, mesmo no caixão, tinha um sorriso largo, as fotos que minha irmã escolhia para pôr no caixão, eram sempre sorrindo. Não conheci até hoje outra pessoa que fosse tão feliz e dedicado a fazer as pessoas serem felizes.

Lembrei da cena final do filme Peixe Grande. É a história de um pai que contava histórias para o filho durante toda a vida e o filho, nos últimos dias de vida do pai, corre atrás de saber quais das histórias eram verdadeiras. Durante o enterro, não era apenas a vida dele mas a minha que estava ali, ao redor do caixão. Todos os amigos dele de quem falava com tanta ternura estavam ao redor. Gente que nunca me viu dispensava apresentações, como se costumassem visitar minha casa, pela freqüência com que ele falava de cada irmãozinho. E descobri que eu também não precisava me apresentar. Eles me conheciam por tanto que ele falava da família com a mesma ternura e felicidade.

Algumas pessoas falam comigo surpresas pela força aparente na hora de resolver problemas nesses dias. Como é difícil morrer no Brasil. São tantos documentos, tantas decisões. É triste como essa força é aparente. Afinal, é preciso que saibam de uma coisa pouco comentada fora de casa por mim quando ele estava vivo: todos os problemas que já tive na vida, liguei para ele ou esperei chegar de viagem para saber o que fazer ou ele conferir se eu soube o que fazer. Quando me virem então dedicado a resolver tantas questões, lembrem que minha mão já foi na direção do celular na linha da cintura várias vezes por dia e que é para quem penso em ligar a cada pergunta que alguém faz para mim atrás de um documento. Ainda vou ligar para ele por acidente um dia desses ou mandar alguém ligar. É nessas horas que mesmo uma caixa postal para deixar recados já me faria muito feliz.

Estou reconstituindo a vida profissional do meu pai nos documentos que separo para dar conta da burocracia. Encontrei uma foto minha ao lado da dele num porta-retratos da pasta de trabalho. Encontrei mais cartões de visitas da torta alemã que minha mãe faz e vende numa faixa limitada de bairros do que cartões de trabalho dele. E ele não trabalhava na mesma área de entregas dela, mas em cidades muito distantes. Não é fácil distinguir o que são assuntos dele e o que são problemas de amigos que ele já acompanhou. Em quase todas as pastas de documentos, há cartões de Dia dos Pais ou de Aniversário, que ele sempre guardou, há terços, mas há também processos inteiros de amigos sobre quem ligava para mim para perguntar sobre as soluções de problemas judiciais de quem quer que fosse.

Em todos os passos que dei e tentei dar, ele queria saber por quê, para onde, com quem, não para corrigir, mas para fazer parte. Torcia, vibrava, admirava tudo que eu tentava fazer, enquanto eu me concentrava em tudo que não tinha dado certo e que tinha que consertar. Foi com ele que aprendi a dizer aos meus alunos mais inseguros “Não me faça ter que acreditar em você mais do que você acredita”. Ele nunca diria isso, já acreditava mais em mim do que eu mesmo.

Eu deixava, como meus irmãos deixavam, de sair com amigos para sair com ele e minha mãe. Sempre era muito importante estar ao lado dele nos finais de semana. Era tão importante esse período que já perguntaram se nossos pais eram separados, por tanto que falávamos nos finais de semana com o pai e a mãe juntos. Será difícil ser feliz sem ele por perto. Cansava de repetir aos amigos que quem passasse um dia acompanhando a família não perceberia que o trabalho dele era em outro estado, por tantas ligações trocadas durante o dia, tantas referências a ele durante o dia.

Quem encontrar essas lembranças, pense na dificuldade que é lembrar de colocar no passado tantas palavras. Muitas teriam que ficar no presente, pois a grande família do meu pai, todos os “irmãozinhos” que colecionou, todos o amam. Sem passado. Algo assim não passa, não. Ficam me dizendo “com o tempo passa”. Não passa. Meu senso de humor, meu jeito de trabalhar, meu temperamento, minhas lembranças, aprendi com ele, mesmo que em muitas ocasiões não estivesse presente fisicamente pelo trabalho.

Meu pai morreu. A dor é viva no que sobrou de mim.

2 comentários:

Estrela disse...

Fique com Deus.
Estou por aqui.

"o moço da bodega" disse...

O homem não morre. Simplesmente repassa ao herdeiro o seu legado. A vida do seu pai continuará em você, nas atitudes, no jeito de falar, de sonhar, de andar e de ver e lidar com a vida.

Que você possa encontrar forças nas lições que ele lhe deixou.

Abs.

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