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quinta-feira, 15 de março de 2007

Vaticano 'silencia' expoente da Teologia da Libertação



O Vaticano anunciou ontem uma notificação em que pune o teólogo jesuíta Jon Sobrino, considerado um dos maiores expoentes da Teologia da Libertação. Acusado de ressaltar em seus livros a humanidade de Jesus Cristo (e não a sua divindade), Sobrino, um espanhol que vive em El Salvador há mais de 50 anos, já sabia que seria punido. O processo de investigação contra o teólogo começou em 2001. Com a publicação oficial da notificação, Sobrino passa a ser o primeiro teólogo a ser "silenciado" no papado de Bento XVI.
De acordo com o documento da Congregação para a Doutrina da Fé (o antigo Santo Ofício, cuja função é promover e tutelar a doutrina da fé e da moral em todo o mundo católico), foram analisados dois livros de Sobrino: Jesus Cristo Libertador – Leitura Histórico-Teológica de Jesus de Nazaré e A Fé em Jesus Cristo – Ensaio a Partir das Vítimas. "Optou-se por este procedimento tendo em conta, entre outras razões, a grande difusão que tiveram, sobretudo na América Latina, as obras de Jon Sobrino", diz o documento. 'Imprecisões' - O Vaticano afirma ter encontrado imprecisões na obra do jesuíta, nascido em Bilbao no ano de 1938. "O padre
Sobrino tende a diminuir o valor normativo das afirmações do Novo Testamento e dos grandes Concílios da Igreja antiga", diz a Santa Sé. "Tais erros de índole metodológica levam a conclusões não-conformes com a fé da Igreja em pontos centrais da mesma: a divindade de Jesus Cristo, a encarnação do Filho de Deus, a relação de Jesus com o Reino de Deus, a sua auto-consciência, o valor salvífico da sua morte".
No último domingo, o arcebispo de San Salvador, monsenhor Fernando Sáenz Lacalle, antecipou a decisão do Vaticano. "O padre Jon Sobrino será impedido de dar aulas em qualquer escola católica ou publicar livros até que revise as suas conclusões", afirmou. Na ocasião, o monsenhor pediu a Sobrino, professor e um dos criadores da Universidade Centro-Americana, que apoiasse os ensinamentos da Igreja "para evitar as controvérsias que ainda geram a atividade dos teólogos liberacionistas, especialmente, em função da 5ª Conferência Episcopal Latino-americana", que será aberta pelo papa no dia 13 de maio em Aparecida. Silêncio obsequioso -
Entre 1981 e 2005, o então cardeal Joseph Ratzinger esteve à frente da Congregação para a Doutrina da Fé e puniu com rigor os dissidentes. Entre eles, o religioso brasileiro Leonardo Boff, um dos mentores da Teologia da Libertação, foi condenado, em 1985, ao "silêncio obsequioso".
Conhecido como um dos principais teóricos da Teologia da Libertação, movimento de caráter religioso, político e social que se desenvolveu rapidamente por toda a América Latina a partir dos anos 1960, Sobrino foi homenageado no último fórum internacional da teologia, realizado em janeiro, em Nairóbi, no Quênia. O movimento em favor dos pobres e marginalizados ganhou oposição da hierarquia da Igreja Católica desde o início. Muitos de seus líderes foram silenciados e, nos anos 1990, o papa João Paulo II chegou a dizer que a teologia estava morta. Hoje, a Teologia da Libertação é um movimento globalizado. Tem integrantes em todas as partes do mundo, que se reúnem em grupos de feministas, indígenas, ecologistas, afro-descendentes e acadêmicos. (BBC Brasil)

3 comentários:

Mario disse...

Recordar é viver, e como estamos precisando recordar certas coisas e para onde certas idéias nos conduzem.

Entrevista com Nelson Rodrigues, revista Manchete, 1977.

Manchete — Você está lançando o seu livro O Reacionário. Por que o livro e por que esse título?

Nelson Rodrigues — Este livro é uma das coisas mais sérias que já fiz na minha vida. Antes de falar de mim, mal ou bem, o sujeito deve ler o meu livro para saber o que eu acho, para saber do meu anticomunismo, saber do meu horror a Marx... Marx não toma conhecimento da morte. E nós exigimos de Marx a devolução de nossa alma imortal. Tudo isso está no livro. Agora, eu tenho uma virtude única, que é a seguinte: não tenho medo de passar por reacionário. Querem me chamar de reacionário, chamem; querem me pichar como reacionário, pichem; querem me pendurar num galho de árvore como ladrão de cavalo, pendurem. Mas eu sou homem que não aceita essa impostura gigantesca dos chamados países socialistas. Por mais que eu tenha horror da política, há muita política no meu livro. Eu acho que a política corrompe qualquer um, mas ela é um fato. Alias, vocês querem saber de uma coisa? Eu comecei a ficar anticomunista aos 11 anos de idade. Eu era um rato de jornal e nessa ocasião comecei a freqüentar o jornal A Nação, do Leônidas de Rezende, um comunista tremendo. Então, um dia assim sem mais nem menos, um rapaz me disse que, se o partido mandasse, ele estrangularia a sua própria mãe. Era só o partido mandar. A ONU, por exemplo, não considera o Brejnev um canalha. Para ela, o fato de existirem intelectuais internados em hospícios não representa um ato atentatório aos direitos humanos. Agora, vou te dizer uma coisa: eu pensei muito quando dei ao meu livro o título de O Reacionário. Porque no duro, no duro, eu não sou reacionário. A mais cruel forma de reacionarismo está nos países socialistas, na Rússia, em Cuba, na China, etc. Realmente, eu sou um libertário. Veja você: dois pobres-diabos cidadãos soviéticos seqüestraram um avião para deixar o paraíso e foram parar na Finlândia. Entregaram-se ao governo finlandês, que os devolveu ao Brejnev. Vão ser naturalmente fuzilados. Pois bem: quem protestou contra isso? Onde está o manifesto dos intelectuais com 3.999 assinaturas? No duro eu sou um libertário. Eles, marxistas, é que são reacionários. Repito mais uma vez: os marxistas é que são reacionários.

Manchete — Nelson, ainda existe o padre de passeata? Eles ainda estão em plena atuação?

Nelson Rodrigues — Ainda existem e estão em plena atuação. Sempre houve o padre de passeata. É o falso padre, o sujeito que trai a Igreja, que trai Cristo, trai Deus. Este é o padre de passeata.

Manchete — Você está a favor do Lefebvre ou do Papa?

Nelson Rodrigues — Sou inteiramente a favor de Lefebvre. Eu acho que a Igreja de Cristo é a Igreja de Lefebvre. Acho que qualquer faxineiro prefere o latim. O latim é a verdadeira linguagem. Aliás, a gente não precisa entender a língua, basta o som.

Manchete — Nelson, você gostaria de viver agora ou na Idade Média?

Nelson — Em primeiro lugar, eu não vejo nada de ruim na Idade Média, como você está insinuando. Foi uma etapa da história da humanidade, simplesmente. A Idade Média tinha seus valores formidáveis. A par disso, já afirmei que tinha uma alma de Belle Époque. Hoje estamos assistindo a uma destruição de valores. Nunca a maldade humana, a perversidade humana, a ferocidade humana foram tão violentas como em nossa época. Eu digo o seguinte: se houvesse uma guerra nuclear e o mundo acabasse, não se perderia grande coisa. Alias, de todas as épocas eu acho que a pior é exatamente a nossa.
Manchete — Mas você é muito amargo.

Nelson Rodrigues — Como?
Manchete — Muito amargo em face da vida.

Nelson Rodrigues — Meu coração, meu anjo: a amargura é o elemento do artista. A amargura dá uma dimensão fantástica ao artista.

Mario disse...

Mais de Nelson Rodrigues

“O verdadeiro Cristo? É o Cristo verdadeiro. O falso cristo é o cristo dos padres de passeata. Há um cristo de passeata que é mais falso do que Judas. É a igreja dos padres de passeata. Eu sou cristão, mas não me venham falsificar Cristo como uísque nacional”.

“Dá-me um certo cansaço, um certo tédio, ouvir que sou contra o jovem. Não sou contra ou a favor de ninguém, automaticamente. Há pulhas, há imbecis, há santos, há gênios de todas as idades. Naturalmente, o jovem tem o defeito salubérrimo da imaturidade”.

“Naquele momento instalou-se em mim uma certeza para sempre: a Opinião Pública é uma doente mental”.

“Eu sofro pressões incríveis. Todo mundo, a comunidade, exige que sejamos imbecis”

“A verdadeira apoteose é a vaia. Os admiradores corrompem”.

“A única coisa que me mantém de pé é a certeza da alma imortal. Eu me recuso a reduzir o ser humano à melancolia do cachorro atropelado”.

“A mulher não é inferior ao homem. Só o fato de ser mãe a torna superior. A mulher só se inferioriza quando, para imitar o homem, começa a dizer palavrões”.

“Eu acho que o jovem só pode ser levado a sério quando fica velho”.

“Se o homem não fosse eterno ou não tivesse uma alma eterna, não tivesse garantido a sua eternidade, esse homem andaria de quatro. Toda manhã saía de quatro, ferrado, aí pela rua, e montado por um dragão de Pedro Américo”.

Cássio Augusto disse...

Então... o "Santo Ofício" sempre ele... pq será que a Igreja tem tanto medo da Teologia da Libertação??? Assim como tinha medo de Lutero??? Têm medo que o povo descubra que Cristo/Deus está em tdos os lugares e ñ no monopólio da Igreja...

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