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domingo, 14 de janeiro de 2007

Chávez e sua Turma no Brasil

O atual estágio da Era Chávez na Venezuela traz reflexões sobre o Brasil.

Chávez já tentou um golpe de estado em seu país. Não tendo sido bem sucedido, disputou a Presidência e venceu. Quando o mundo refletia se não teria sido um retrocesso, a legitimação de um esforço antidemocrático, o então presidente realizou um referendo, com a presença de observadores internacionais, em que a população precisava decidir se ele deveria continuar no poder. Venceu mais uma vez.

Após ter sido reeleito presidente, com intensas manifestações contra seu governo, foi deposto por uma junta militar. Não demorou para que voltasse para os braços do povo.

Até aquele momento, não havia menções ao socialismo em qualquer de suas vertentes. Era sempre um movimento "bolivariano", inspirado em Simón Bolívar, herói nacional, não em Guevara, Fidel, Lênin.

Na posse para seu terceiro mandato, Chávez declara que começa a implantação do socialismo do século XXI. Estamos no ano 2007 e ele tem sido presidente desde o nascimento do novo século. Por que só agora declarou-se socialista? Lembremos que, de Lula a Anthony Garotinho, toda a esquerda partidária brasileira parece ser socialista. Até o playboy Jorginho Guinle e, mais recentemente, Delfim Netto, já se declararam socialistas.

Ainda não se sabe o que significa seu socialismo. Contudo, como sempre, ele deixa pistas claras de um futuro a ser construído a passos de elefante. Anunciou que as privatizações serão revertidas, com as empresas antes públicas voltando a ser patrimônio do Estado venezuelano. Definiu medidas para restringir a aberturas de novas emissoras de televisão. Declarou que proporá mudanças na Constituição de seu país para que possa ter "poderes especiais" e ser reeleito indefinidamente.

Se é este seu socialismo, como a população pode saudá-lo? Lembremos: nas últimas eleições parlamentares, os partidos de oposição mostraram sua debilidade estratégica ao se recusarem a participar do processo eleitoral, garantindo aos partidos da base aliada 100% das cadeiras no Congresso. Além disso, apesar de ter sido eleição esmagadora, apesar da ausência da oposição, o país testemunhou constrangedores 70% de abstenções no processo eleitoral. Muito mais do que a metade dos eleitores não reconheciam nenhum dos candidatos a seu próprio Parlamento, mesmo sendo todos aliados do presidente pelo qual, segundo o documentário A revolução não será televisionada, não foram poucos os casos de autoflagelações de cidadãos nas ruas de Caracas.

Voltemos alguns anos no tempo. Chávez criou os círculos bolivarianos. Guardemos essas duas palavras que têm sido mantidas afastadas dos noticiários internacionais e que aparecem timidamente no documentário supracitado. Estes círculos foram instaurados por membros do partido do presidente nas favelas mais pobres de todo o país. A população aprendia seus direitos, debatia a Constituição, tinha espaço na TV estatal e montava sua própria rádio comunitária. Desse modo, foi mais fácil ao presidente angariar, num governo voltado à "era da informação", aliados aos milhares. Foram seduzidos pelo direito à informação.

Após conseguir poder absoluto, vem a corrupção absoluta e o presidente anuncia que mudará a constituição para ter plenos poderes com uma população cuja sociedade civil, organizada pelo próprio presidente, encontra-se ideologicamente anestesiada para saudá-lo como grande líder sul-americano.

Por fim, voltemos ao Brasil, mais especificamente a esse mesmo blog em seu post anterior. Em novembro de 2006, diversos movimentos sociais brasileiros bradaram que o segundo mandato do presidente Lula seria marcado por mais manifestações, mais protestos, mais represálias da sociedade civil. Em janeiro, reunidos os movimentos sociais com o presidente, ele começa sua reunião agradecendo-os pelo apoio para a reeleição como passo significativo para a conquista do poder. Além disso, entrevistados pela TV CUT, mostram que estão satisfeitos com os compromissos governamentais.

Não são ilações vagas de um blogueiro iniciante. As imagens trazem as próprias palavras das autoridades do movimento estudantil, do sindicalismo, de movimentos agrícolas. Foi sentida a ausência do MH2O (Movimento Hip-Hop Organizado) que fez campanha por Lula em sua luta pelo primeiro mandato mas depois aderiu ao "silêncio dos intelectuais".

É preciso tomar cuidado quando os movimentos sociais convertem-se em círculos privados de exercício restrito da cidadania, quando têm por objetivo tão somente a manutenção do poder vigente.

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