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sábado, 30 de dezembro de 2006

Movimento estudantil

Na última semana, uma passeata pela avenida Fernandes Lima, em Maceió, marcou um protesto estudantil contra o aumento das passagens de ônibus. O aumento que saiu foi bem menor do que o anúncio anterior do governo, mostrando uma vitória de um movimento tímido.

Tímido, pois quando escolas dizem não ter vagas para mais estudantes, não há protestos. Do mesmo modo quando há consumo de drogas nos pátios escolares, quando faltam professores, na falta de opções de lazer nos bairros, enfim, o movimento estudantil reduz-se a lidar com o transporte estudantil. Seja na emissão de carteiras que permitem pagar metade do valor das passagens seja com o único tema para o qual os protestos ainda ocorrem.

Diante de mensaleiros, sanguessugas etc., a União Nacional dos Estudantes participou neste ano de uma constrangedora marcha em solidariedade ao presidente Lula em Brasília. Não é à toa que uma das razões apontadas para a crise de mobilização e consciência política do movimento estudantil brasileiro tem sido a sua cooptação partidária. As camisas e bandeiras predominantes entre as lideranças na Av. Fernandes Lima eram do PSTU e do PCdoB, não de entidades estudantis.

Ao se observar os partidos como príncipes modernos, que disputam o poder e lutam pela conquista coletiva de espaço público, passa a fazer sentido que tantos interesses de grupos da sociedade possam interagir por meio de certas siglas de esquerda. O problema será se a presença estudantil nessas entidades servir tão somente para os próprios partidos e para um trampolim eleitoral aos jovens.

Mesmo assim, é interessante observar a luta pelo transporte público com tarifas justas. Afinal, trabalhadores usam ônibus, mas seus sindicatos e suas associações profissionais não costumam aparecer nessas manifestações. Em São Paulo, Salvador e Recife, em 2006, foram estudantes que enfrentaram a polícia, fecharam ruas, vararam madrugadas para protestar contra a manutenção pelas prefeituras de monopólios rodoviários.

Seja pela nostalgia dos esforços dos antecessores no movimento estudantil, nos anos 1960 e 1970 (carinhosamente retratados em "O ano em que meus país saíram de férias" com estudantes da PUC-SP), seja pelas revelações críticas sobre o mundo nos cursos que estudam, o que importa é que o sopro de rebeldia ainda existe. Talvez falte apenas quem o sopre.

Centros e Diretórios Acadêmicos ainda têm esforços isolados, assim como grêmios. Contudo, para fazer um movimento estudantil é preciso que exista uma dinâmica contínua de interação entre as entidades. É necessário que compartilhem estratégias em torno de objetivos comuns pela educação de qualidade.

Infelizmente, a sucessão das lideranças também pode prejudicar. Devido aos poucos anos em que permanecem nos movimentos, pois não estarão naquele curso superior ou do ensino médio para sempre, serve mais como um amadurecimento político, um treinamento para liderança e expressão de idéias.

Por outro lado, entre aqueles que não lutam nas ruas pelo transporte público nem planejam lutas comuns, o pragmatismo também tem sido produtivo. Se há numa cidade 10 cursos de direito, por exemplo, podem ocorrer num ano 10 seminários jurídicos com temas distintos devido aos interesses diferentes dos estudantes em cada instituição. Com o espaço para debates constituído, espaço privilegiado para a integração entre diferentes faculdades, tempos diferentes podem surgir.

Não há movimento inútil nem decadente, mas apenas que por vezes precise de reformas programáticas. Pois, aqueles a quem atendem continuam precisando de uma entidade que os integre, logo há razão para existir. Há pelo que lutar. Falta apenas a própria luta se tornar coletiva.

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