Translate

domingo, 7 de maio de 2017

Greg News: TV imparcial, privatizações, empreiteiras e Escola sem partido



Começou bem.
Toda sexta-feira à noite, no HBO.

Leia Mais…

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Sobre Alagoas e os Alagoanos

Fonte: SEBRAE de Alagoas


Há uns meses, o amigo Chico Rosário pediu que eu escrevesse para ele o que não poderia faltar, sociologica e antropologicamente, na orientação para empresários de outros estados que quisessem investir em Alagoas. Foi uma oportunidade valiosa para mim, quando pude lembrar dos anos como orientador do Programa ALI do SEBRAE no estado. Como ele publicou em seu blog nessa semana, segue por aqui, também, o conteúdo.

Foi assim:

É difícil escrever sobre o comportamento do alagoano. O plural no nome do estado é dúbio e explica o problema, afinal “Alagoas” deveria ser explicado não pela estrutura lacunar do estado, mas pela pluralidade de perspectivas possíveis. O alagoano é um coletivo.
Este é o estado com o maior número de manifestações de cultura popular catalogadas em todo o Brasil. Isto mostra como seu povo precisa se expressar de diversas formas. A ideia econômica e política de microrregiões auxilia mais do que a simplicidade de dividir Zona da Mata, Agreste e Sertão, mas esta tríade é um bom começo.

É um grande mito tentar lidar com Alagoas como se fosse um estado voltado para o mar. São poucas as cidades litorâneas e mesmo entre elas uma área física pequena de cada uma encontra-se próxima ao mar. Há uma vida inteira sem conexão com as praias na periferia da capital e em boa parte das demais cidades. A vida comercial de Maragogi não depende das praias, mas a procura nacional por seus resorts cria esta ilusão. Do mesmo modo, a preservação histórica de Marechal Deodoro está mais próxima da vida econômica da cidade do que a sazonal relevância da praia do Francês.

Falando mais sobre a capital, Maceió possui um vivo comércio em seus bairros mais populosos que se separa muito da rotina entre shoppings e praias. A periferia da cidade, entre conjuntos residenciais, favelas, grotas possui uma vida paralela às propagandas oficiais do turismo da cidade que volta toda a cidade para um ilusório “paraíso selvagem” em Alagoas. A instabilidade de pontos comerciais com negócios se encerrando em pouco tempo na área litorânea não tem algo semelhante nestes outros bairros, que têm autossuficiência e identidade bem definidos por seus moradores. 
A zona da mata tem subdivisões, bem como o agreste e o sertão o têm, não mais com a mesma imagem da caatinga de Graciliano em “Vidas Secas”, mas com cidades com distinções em seus hábitos que precisam ser reconhecidas. O grande fluxo de moradores que estudam em cursos superiores na capital e nas principais cidades do estado já é uma rotina há anos, mudando o imaginário coletivo das cidades. A mudança é lenta em muitos aspectos da vida privada, da organização familiar, mas perceptível no surgimento de novas necessidades e ideias.

O desenvolvimento de Alagoas passa, necessariamente, por não padronizar seu povo como uma unidade, mas perceber sua pluralidade de identidades internas e atendê-las separadamente. 

Leia Mais…

sábado, 29 de abril de 2017

Sete Camundongos Cegos Tentam Explicar a Politica Brasileira

Há uma fábula chinesa muito antiga (como parece ser toda história oral chinesa...) que foi lembrada por Ilan Brenman, comentarista de livros infantis da CBN (eles têm comentaristas para tudo!) ontem, sobre a greve geral que ocorreu. Vou resumir para ir direto ao assunto.

Em uma vila, sete pequenos sábios camundongos examinavam uma estrutura muito pesada, grossa, firme no chão. Em vez de uma pata de elefante, um dos camundongos gritou "é uma coluna!". Mas o outro, mexendo na tromba disse, preocupado: "Não, cuidado, que pelo jeito como é flexível só pode ser uma cobra!". Um terceiro camundongo, examinando o marfim das presas disse "só pode ser uma espada!". Como eu não gosto de rato, vou direto ao último deles que, incomodado com a variedade de análises, deu uma volta ao redor do bicho e disse "pelas características todas que puderam constatar, só posso chegar a uma conclusão: é um elefante". 

Vamos pensar nos nossos dias um pouco. Se você preferir, pode ver fotos lindas da multidão nas ruas pela greve geral. Por outro lado, há em grandes cidades focos graves de violência e diversidade de palavras de ordem, também. Há, ainda, clara omissão de categorias querendo trabalhar a despeito da vontade de seus sindicatos. Em vez de procurar quem tem razão, é melhor procurar ver o quadro geral. 

Por que ir às ruas para protestar nessa semana? Uma Reforma Trabalhista enorme foi aprovada na Câmara dos Deputados com medidas em seu texto que alteram muito direitos dos trabalhadores assalariados, muda princípios de interpretação do Direito do Trabalho e comprometem as funções do sistema sindical brasileiro. Na mesma semana em que se divulgou que o presidente da república tem cerca de 4% de aprovação da população e semanas após delatores na Operação Lava Jato da Polícia Federal em consenso informarem que toda propina milionária recente passou pelos presidentes que já tivemos nas últimas décadas (com o atual presidente em várias reuniões para negociar uns cascalhos).

Em vez de criar meios de regulação contra irregularidades de sindicatos de fachada, tira-se por lei como se manterem (acabando com o imposto sindical) e tirando parte das suas atribuições legais (participação obrigatória em demissão coletiva, em greves e na homologação de rescisão de mais de um ano de trabalhadores). Então, sindicatos e centrais sindicais têm todos os motivos para estarem indignados.

Logo quando lembramos 100 anos da primeira greve geral no Brasil. Muito simbólico fazer outra agora. É fácil encontra na imprensa internacional quem elogie o tamanho da mobilização, envolvendo ao mesmo tempo todas as capitais e as grandes cidades brasileiras.

Então, sobram motivos para protestar. Porém, os sindicatos não se preocuparam em divulgar aos trabalhadores das categorias como funcionam a reforma trabalhista e a previdenciária, nem como estão na Lava Jato os políticos do estado. Houve convocação para greve geral e divulgação dos nomes (parecendo cartaz de Procurado de Faroeste) daqueles que votaram a favor da reforma trabalhista. Assim não se esclarece coisa alguma.

Lendo até aqui, é possível que você sinta falta de alguns aspectos, contra sindicatos, contra partidos de oposição ao presidente. Tente somar estas perspectivas para ver se cabe se mobilizar, não apenas gerar contraposição de ideias. O elefante logo sairá andando...

Quando o Direito do Trabalho, este desprotegido, pensa em greve, temos uma pausa no trabalho por impossibilidade de negociação com empregadores até que se retomem as negociações. Parar por um dia é paralisação de alerta. Significativo, mas não é exatamente greve. Juridicamente, não. Mas, politicamente seria? 

Pararam as cidades porque as centrais sindicais, com boa estratégia, pararam os meios de transporte. Seus filiados e de partidos trabalhistas de oposição ao presidente mobilizaram por cerca de um mês seus associados. Novamente, não há nada errado nisso. Porém, assim como os sindicatos, os partidos têm palavras de ordem mas um caráter didático frágil. Falam com a opinião pública tão bem quanto o presidente da república (isso não é um elogio).

Pode ser, então, politicamente, uma greve geral por ter afetado de modo amplo um dia normal de trabalho mas não por ter correspondido à massa das categorias profissionais. Juridicamente, não envolve negociações nem confronta empregadores, logo fica ainda mais difícil chamar de greve. 

Se sou contra, a favor, isso fica irrelevante. Quero que possa produzir efeitos, que tanta gente querendo mudança nas ruas não esteja por lá em vão. 

Enquanto isso, uma livraria online divulga o livro dos sete camundongos dizendo que sua importância é: "Os camundongos coloridos poderão levar o pequeno leitor a descobrir os nomes das cores e os dias da semana.".

Que cada um volte se preferir ao seu ponto de vista ou tente ampliar o horizonte. Sabe como termina a história?

"Assim são os homens: pegam uma parte, pensam que é o todo e continuam tolos"

Leia Mais…

domingo, 9 de abril de 2017

Machismo e Anacronismo no Troféu Imprensa



Enquanto assistia a dois blocos do Troféu Imprensa 2017 (com "os melhores" de 2016), não apenas me perguntava por que o programa ainda existe mas como era possível ver o que aparecia.

As imagens são fáceis de achar e os discursos são muito repetidos por revistas e cadernos de jornais dedicados à TV aberta brasileira. Os próprios jurados (que votam e justificam seus votos abertamente, com a máxima pressão possível) criticaram a ausência de programas inovadores, mencionando-os, em algumas das categorias. Carlos Alberto de Nóbrega nobremente parou para elogiar a inovação do Tá No Ar no humor. Mas, a crítica antiga aos critérios estranhos de seleção do prêmio não foi o pior da noite.

Quando alguém considerar que há exagero em uma acusação de machismo, verifique se homens e mulheres em situação semelhante naquele caso foram tratados sem qualquer forma de ofensa, desprezo, violência. Partindo deste aspecto, os dois blocos que assisti são boa demonstração do quanto este programa pertence a outra época.

Quando Danilo Gentili e o elenco do The Noite foram ao palco para receber o prêmio do ano anterior como melhor programa de entrevistas, o apresentar estar solteiro foi motivo para perguntar mais de uma vez "será que ele é?", se a "menina" do elenco dava conta de tantos homens, mas o pior ainda está por vir: o dono da emissora / apresentador do programa pediu que ele não fale mais sobre política. Com uma breve piada sobre depois sobrar para o próprio Silvio, foi só isso. Lembrem do critério que pedi, homens e mulheres em iguais condições. 

Vejamos o que surge quando uma apresentadora vai ao palco. Rachel Sheherazade, instantes depois, foi chamada para receber o prêmio como melhor apresentadora de telejornal. Por ela dar opinião durante o telejornal da emissora, durante MINUTOS o apresentador lembrou que é seu patrão, ameaçou demití-la, falou para onde ela poderia ir, que ela era "paga para apenas ler o teleprompter" "com sua beleza", que era muito bonita (repetido várias vezes) e jovem (repetido mais algumas), que devia engravidar logo, perguntou se o noivo a deixava trabalhar na TV ou tinha ciúmes (atenção para as duas opções), para elencar apenas o que de imediato posso lembrar. 

Tudo isto ocorreu após Carlos Alberto de Nóbrega ir ao palco receber um prêmio de um ano anterior pelo melhor humorístico, tendo sido convidado a levar sua esposa-troféu (tratada assim pelos elogios ao corpo, à juventude e à força para a vida sexual do apresentador) ao palco. Quando o marido insistiu, reforçou, repetiu que ela trabalha, tem carreira própria como médica, "para cuidar do velho, é bom ter um filho dele logo", foi dito pelo apresentador. 

Os vídeos estão aqui, aqui e aqui, na ordem.

Dois blocos apenas. Seria preciso assistir mais para afirmar que todo o discurso do programa de falsa intimidade apenas para grosserias poderem ser ditas está muito além do prazo de validade? Não se trata de desconsiderar o peso monstruoso de Silvio Santos para a história da TV brasileira, a relevância sempre lembrada para renovação de ideias, de ambiente de trabalho inovador na TV, uma biografia única que se confunde com a própria emissora e vai além como empresário. O labelling, a rotulação de pessoas a partir de discursos específicos, condutas particulares, não é uma prática construtiva, mas a regularidade com que isto ocorre no caso e o espaço para programas, apresentadores, roteiros que perpetuam tais práticas é algo sempre desagradável. 

É um sopro de alívio perceber que entre os mais jovens nada disso se repete e que não apenas novas ideias mas respeito às mulheres na programação é possível. 

Leia Mais…

quarta-feira, 1 de março de 2017

O Oscar em que "se celebra o que significa viver"


As conquistas simbólicas para a diversidade étnica e sexual foram muitas no Oscar nesse ano. Primeira mulher negra a ganhar um Oscar, Tony e Emmy (Viola Davis), primeiro muçulmano a ganhar um Oscar (Mahershala Ali), uma sucessão de filmes sobre negros e homossexuais oprimidos, uma história baseada em fatos como melhor filme, um iraniano premiado que não vai ao prêmio em protesto contra Trump e em solidariedade a outros impedidos de entrar no país...


Viola Davis resumiu todo este contexto com seu discurso, em que celebrou a bênção de fazer parte da "única profissão em que se celebra o que significa viver". Mas não para por aí. Contei três premiados que agradeceram aos seus professores. 

No erro, mais um símbolo de luta. Entre um filme que luta entre o sonho e a realidade na construção da vida (La La Land) e uma realidade quase proibida de sonhar (Moonlight), a sequência final do primeiro foi reproduzida involuntariamente no Oscar tirado das mãos dos seus produtores e as dificuldades para ter conquistas do segundo se repetem com um prêmio entregue aos tropeços em um palco cheio de constrangidos. 

O discurso do diretor, Barry Jenkins, apenas foi publicado online dias depois na imprensa americana:

"Tarell [Alvin McCraney] e eu somos Chiron. Nós somos aquele menino. E quando você assiste Moonlight, você não pensa que um menino que cresceu como e onde nós crescemos iria crescer e fazer um produto artístico que venceria um Prêmio da Academia. Eu disse isso várias vezes, e o que eu tenho que admitir é que eu coloquei esses limites em mim mesmo, eu neguei esse meu sonho. Não vocês, não outra pessoa - eu. E então, para qualquer um vendo isso que se vê em nós, que isso seja um símbolo, um reflexo que leve você a se amar. Porque fazer isso pode ser a diferença entre sequer sonhar e, de alguma maneira através da graça da Academia, realizar os sonhos que você nunca se permitiu ter. Muito amor."

Na coluna Gay Nerd do Omelete, Igor Esteves de Oliveira mostrou um aspecto do porquê de Moonlight ser tão relevante. Não se trata apenas de um filme lindo, poético sobre vidas escondidas na periferia e impedidas de serem felizes, mas da oportunidade rara para com pouco orçamento tão bem investido mostrar a construção desde a infância de dores que homossexuais vivem constantemente. Sem que a vida gay pareça precisar passar por boites, plumas, roupas femininas em todos os casos, não, mas com tristeza que o jornalista dizia que podia conversar com seu companheiro enquanto assistiam ao filme sobre aspectos de suas vidas agora ficarem mais claros um para o outro (para ler o ótimo texto, clique aqui).

Independente das piadas e dos protestos contra o presidente dos EUA, os filmes falaram muito mais sobre política quando mostraram pessoas em suas dores, sendo um prêmio nesse ano com espaço para grandes histórias do cotidiano. 

Com três mulheres oprimidas por serem negras e mulheres (e a última viva das personagens sendo homenageada no Oscar), com um homem de luto sem espaço para superação do que sente mas aprender a conviver com sua situação, com um adventista lutando sozinho para salvar vidas no meio de uma guerra (e seu gesto sendo a coisa mais irracional daquela história enquanto pessoas são esmagadas...), com um casal tentando a sorte com um amor afundando (e usando-se a linguagem feliz de um musical para mostrar isso), Moonlight vence no quesito tristeza poética sobre a realidade.

Para quem considerar que foi muito politizado, está na história do cinema a conquista dos oprimidos, a dor dos humilhados, desde o começo do século XX. Quando os grupos em desvantagem ganham voz para terem como intérpretes na arte seus próprios integrantes, aqueles acostumados a mandar e pisar há gerações se incomodam e querem a fantasia pela fantasia, reclamam do "politicamente correto" de não poder ofender livremente, reclamam da pobreza na tela grande, reclamam porque não são mais os únicos a aparecer com final feliz.

Como é dito no filme em um dos muitos momentos inspirados, todos têm direito à luz do luar. 

Leia Mais…

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Resultado do I Concurso Nacional de Decisões Judiciais e Acórdãos em Direitos Humanos

Decisões judiciais em diversos tribunais foram premiadas pelo Ministério de Direitos Humanos com o Conselho Nacional de Justiça. Estão abaixo links para consulta das sentenças e dos acórdãos, menos aqueles que se encontram em segredo de justiça:


Categoria Direitos da Criança e do Adolescente. Juíza do Trabalho Substituta, Elinay Almeida Ferreira de Melo, TRT-8.
Combate à prostituição e trabalho infantil em embarcações de carga. (Segredo de Justiça).
Categoria Direitos da Pessoa Idosa. Jean Fernandes Barbosa de Castro, TJ-TO.
Categoria Direitos das Mulheres. Juiz Federal Roger Raupp Rios, TRF-4.
Categoria Direitos da População Negra. Juiz de Direito Substituto Newton Mendes de Aragão Filho, TJ-DFT.
Categoria Direitos dos Povos e Comunidades Tradicionais. Juiz Federal Ilan Presser, TRF-1.
Categoria Direitos dos Imigrantes e Refugiados. Juíza do Trabalho Angélica Candido Nogara Slomp, TRT-9.
Categoria Direitos da População LGBT. Juiz de Direito Danniel Gustavo Bomfim A. da Silva, TJ-AC.
Extensão das garantias da Lei Maria da Penha à vítima transexual. (Segredo de Justiça).
Categoria Direitos da População em Privação de Liberdade. Juiz de Direito Substituto em 2º Grau Marcelo Semer, TJ-SP.
Categoria Direitos da População em Situação de Rua. Ministro Og Fernandes, STJ.
Categoria Direitos da Pessoa com deficiência e da pessoa com transtornos e altas habilidades/superdotação. Juiz Titular de Vara do Trabalho Bráulio Gabriel Gusmão, TRT-9.
Categoria Promoção e respeito à diversidade religiosa. Desembargador Gamaliel Seme Scaff, TJ-PR.
Garantia de prosseguimento em processos de adoção e à liberdade de culto de instituição de acolhimento no Paraná. (Segredo de Justiça)
Categoria Prevenção e combate à tortura. Juiz de Direito Vanderley Andrade de Lacerda, TJ-BA.
Categoria Combate e Erradicação ao trabalho escravo. Juíza Federal Jaiza Maria Pinto Fraxe, TRF-1.
Menção Honrosa: Direitos da Criança e do Adolescente. Juíza de Direito Ana Cristina Borba Alves, TJ-SC.
Combate a ilegalidades em unidade de internação de adolescentes. (Segredo de Justiça)
Menção Honrosa: Direitos da Criança e do Adolescente. Juiz de Direito Thiago Baldani Gomes de Filippo, TJ-SP.
Adoção de criança por casal homoafetivo. (Segredo de Justiça)
Menção Honrosa: Direitos da População LGBT. Juiz Relator da 1ª Turma Recursal/MG Gláucio Maciel Gonçalves, TRF-1.

Leia Mais…

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Quem decide o que é carnavalesco?

Não faz muito tempo, Edson Cordeiro cantou Ave Maria em um trio elétrico em Salvador. Daniela Mercury levou música eletrônica para outro. Cláudia Leitte cantou em inglês (ela insiste nisso...). As novidades continuarão que o público quer se divertir e ninguém mais vive sem múltiplas influências culturais.

Porém, não é assim em todos os lugares. Sou de Recife, criado em Olinda, e conheço o carnaval de lá, mas à distância (odeio multidão). Em Olinda, faz décadas que trios elétricos não podem subir as ladeiras e faz sentido. Patrimônio tombado da humanidade, as vias são estreitas e o casario poderia ter danos. Todos aceitaram bem porque havia motivo e os blocos de rua, flexíveis, fragmentados, continuaram cantando o que quisessem entre bandas de frevo circulando. 

Em Recife, por outro lado, o tecnobrega que agita a periferia da cidade e Johnny Hooker, uma força sonora que está chamando a atenção por onde passa com a originalidade do que faz, estão proibidos de tocar no carnaval. Porém, ao mesmo tempo em que a prefeitura informa que tem que ser frevo, contratou Jota Quest. Vai entender...

Enquanto Recife constrange impondo tradições que o povo quer flexibilizar, outras grandes cidades fazem um movimento diferente. Grandes blocos de carnaval do Rio de Janeiro têm repensado algumas marchinhas. Homofóbicas, racistas, machistas, por fim, anacrônicas, não serão cantadas. Não foi o prefeito que decidiu, mas a organização dos blocos atendendo a uma reclamação de foliões cadastrados. Se o carnaval for a festa do povo realmente, então as coisas se resolvem assim.

Faz todo sentido que o Estado intervenha decidindo o percurso de blocos, dias de folia, afinal outras pessoas têm outras atividades e precisam saber, caso não queiram participar da festa, por onde podem circular em paz. A segurança é pública, assim como cuidar de emergências médicas, e tem sido assim desde os entrudos melando as pessoas umas mil décadas atrás. 

O carnaval censor precisa aprender com o Rock in Rio. Se a marca é poderosa, é Rock in Rio Lisboa, Rock in Rio Barcelona. Se surgiu a possibilidade de Britney Spears cantar lá, Sandy e Júnior, cria-se uma noite pop no evento e o público decide o que é Rock indo ou não naquele dia de shows. Simples e respeitoso à diversidade de ideias. 

Minha sobrinha de Smurfette no carnaval.

Leia Mais…
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...