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sábado, 13 de outubro de 2018

Sou de uma velha guarda no movimento estudantil


Estive no Encontro Regional de Estudantes de Direito, o Massayo 2018 ou XXXI encontro. É sobre essa elevada numeração que preciso falar. Fui assistir a uma mesa sobre a práxis jurídica emancipatória: usos táticos. E lá estava alguém que entrava no movimento estudantil quando eu saía, estava na mesa. Fui a dois EREDs, em Maceió e em Salvador, há mais de 20 anos. Não havia a honestidade ideológica, a responsabilidade política, que pude presenciar agora.

Antes da mesa, um arrepiante (literalmente e simbolicamente e como quiser mais) chamado musical-teatral gritando Marielle ("presente") ao final como grito de mobilização (havia paz demais para eu poder chamar de grito de guerra). Quando o ex-quase-colega de movimento estudantil falou sobre a história da democracia no Brasil, recebeu das perguntas o mesmo que os outros dois palestrantes (que insistiam em um marxismo jurídico clássico em vez dos usos táticos do tema da mesa): uma grande lição moral. As perguntas ansiavam por "o que fazer" e "como fazer". As melhores respostas, dos outros dois integrantes da mesa, eram "esperem", considerando as oficinas que ainda viriam.

Estive por lá novamente no mesmo dia para apresentar com amigos um trabalho em um GT sobre estágio e extensão em Direito. Falamos sobre a viabilidade de quebrar barreiras para estudantes levando-os para Brasília, em um projeto de extensão independente que já completa três anos. Ouvi sobre o significado da prática jurídica na vida de outros dois estudantes de um modo que preciso levar aquele texto para professores de prática. Percebi, com aquela vivência e aquela programação algo que me fez bem: sou de uma velha guarda. A autonomia, a disciplina estudando, tornam desnecessária qualquer continuidade com gestões anteriores, estive com minha memória afetiva mas, principalmente, satisfeito com aquela continuidade organizada do que meus amigos só sonhavam.

Fui do movimento estudantil por um breve período de um ano, quando tinha 18 anos de idade. Com uma equipe honesta, sabíamos de nossas limitações. Sucedíamos um grupo que lutou por uma sala e para o curso os levar a sério, queríamos integração do centro a uma federação nacional que estava, também, se estruturando. Depois, não acompanhei mais as mudanças que viriam. Era a sensação de dever cumprido com amigos sucedendo com confiança.

Há meses, fui convidado para palestrar em uma mesa sobre ensino jurídico em um seminário preliminar ao ERED. A ótima organização me surpreendeu e fiquei à vontade. Agora, fui convidado para ser moderador e depois delicadamente desconvidado. O motivo me deixou orgulhoso, para não haver hierarquia discente-discente, para que todos no GT estivessem em igualdade, sem barreiras criadas pela presença de um professor. Perfeito. Não é o evento para esse tipo de moderação com status de autoridade, por menor que fosse. Estive com os amigos apresentando um trabalho em que o fato de sermos professores era completamente irrelevante, éramos simples representantes de duas instituições privadas de ensino superior. Saí feliz.

Acompanhei no dia seguinte a rotina de plenárias e oficinas pelos stories do evento no Instagram. Estudantes lotaram plenárias sobre direitos das mulheres e sobre integração LGBT, fizeram oficinas sobre pesquisas em movimentos sociais e sobre advocacia popular, tiveram acesso a vivências sobre assessoria jurídica popular. Estudaram como mudar o mundo, não só sonharam com isso nem resmungaram sobre isso (resmungar  é especialidade da minha faixa etária)

Tanto quando estive presente como público quanto quando estive no GT e depois pelos stories a pauta era a mesma: precisamos de mais empatia para nos identificarmos com aqueles que precisam de defesa jurídica contra opressores. Encontraram diversas formas de dizer isso, todas eficientes.

Durante um feriado prolongado entre 11 e 14 de outubro, lá estavam umas centenas de estudantes preocupados em estudar o mundo real para aplicar ferramentas jurídicas e políticas contra o fascismo que pode se apresentar de acordo com expectativas que existem sobre as eleições presidenciais. Ansiosos mais do que angustiados, curiosos mais do que depressivos, presentes acima de tudo. 

Se gritavam com frequência "Ele não" (sobre um candidato a presidente que não merece ter o nome lembrado), eu só queria responder agora, vendo de longe o movimento, "Eles e elas sim". Ainda bem, o futuro está sendo bem construído com boas instâncias de resistência. Ainda falta mais um dia para que se encerre o evento e já espero apenas poder ser útil novamente.


Após a Plenária Final
(dos stories do evento no Instagram)

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sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Notas desanimadas sobre eleições melancólicas



Sem imagens, memes, links, este é um relato à moda antiga sobre a construção de novas relações políticas no Brasil. Escrevo quando o 2o turno das eleições presidenciais ainda não se encerrou, mas com um franco favorito bem previsível. Há mais do que falar do que essa etapa.

O Congresso Nacional perdeu grande parte das suas lideranças. Mofadas pela Lava Jato ou por não terem mais diálogo com a sociedade, agora ou se aposentam ou enfrentam os tribunais sem foro privilegiado. Bons ventos para essa etapa da política brasileira, mas é preciso descobrir logo quem os substituirá. 

O mesmo Congresso teve uma imprevista renovação nas duas casas legislativas. PSOL passou a ter 10 deputados federais, a Rede Sustentabilidade ganhou senadores, o Novo tem 9 deputados federais, temos um senador gay, três deputadas estaduais trans, uma senadora tetraplégica, um deputado federal cego... a diversidade da sociedade aproxima-se dos parlamentos, que nunca foram tão femininos em sua composição. Novas temáticas surgirão a partir de 2019. É preciso se aproximar desses novos representantes para que eles dialoguem com a sociedade civil nos seus projetos de lei. 

Movimentos sociais ascendentes nos últimos anos conquistaram lugares na Câmara, com as principais lideranças do MBL tornando-se deputados. Assim, quem se dedicava a espalhar fake news agora tem imunidade parlamentar sobre o que quiser dizer e foro privilegiado quando agredir alguém, precisaremos ficar de olho neles. 

O próximo presidente da República terá grandes desafios. PT e PSL têm mesmo número de senadores e as maiores bancadas na Câmara dos Deputados. Os partidos precisarão definir novas lideranças e as pautas principais tendem a mudar. O mercado que se manteve instável (como é típico) durante o 2o Turno quer uma reforma tributária e previdenciária. Os novos parlamentares podem pressionar por uma reforma política.

Partidos que tiveram voz no 1o turno como Patriotas, Rede e PcdoB podem deixar de existir pela cláusula de barreira (Novo e PSOL, representando novas ideias à direita e à esquerda, escaparam tranquilamente) e precisaremos acompanhar para onde seus políticos irão.

Não é o fim do mundo. Militares reformados não comandariam um golpe de Estado, ainda mais porque já terão a Presidência. Haddad não faria uma revolução comunista (algo muito distante do PT apesar do imaginário popular) e tem experiência de gestão, não dependeria de Lula para governar. Apesar disso, falta razão e sobram medo e ódio nas eleições.

É preciso que quem conseguiu ler esse texto até o final sem uma vontade louca de gritar algo, colar links e memes nos comentários, ofender alguém mantenha a cabeça fria para o que virá após o 2o turno.

Atos de violência, homicídios, lesões corporais ocorreram em eleições sem debates no 2o turno, algo simbólico da dificuldade de diálogo que marca um país mais do que dividido: bipolar sem seguir necessariamente nenhum dos dois lados. 

Eleitores de Haddad eram em parte do Ciro, gostariam de ser do Amoedo, estiveram com Boulos, preferiam Lula... difícil quem realmente goste de estar votando nele sem vínculos com o PT e sem receio de Bolsonaro. Eleitores de Bolsonaro costumam responder aos meus comentários em redes sociais apenas com raiva do PT, enfraquecido moralmente pela falta de uma autocrítica após o Mensalão e a Lava Jato; não são idiotas, fascistas (apesar de haver, claro, racistas, machistas, misóginos, homofóbicos e transfóbicos com saudade da ditadura aqui e ali), mas não vêem alternativa contra o PT. Enquanto um grupo tem o discurso do desastre pela iminência de uma ditadura, o outro lado tem medo de um grupo que representa crimes. Atraso marca os dois lados e o mais certo talvez seja o Branco, Nulo ou Ausente, que infelizmente não pode ganhar uma eleição presidencial. De todo modo, metade do país (ou mais, considerando quem votou desconfiado para não eleger o outro) estará contra quem for eleito, seja quem for. 

Acompanhemos as notícias, com cabeça fria e procurando nossos representantes parlamentares. Em 4 anos, talvez analfabetos políticos estejam em menor número, gritando menos, menos desesperados e examinando, enfim, propostas em programas. Se foi possível mudar a composição do Congresso e derrubar Magnos Maltas, Romeros Jucás, é possível ter um pouco de otimismo enquanto acompanhamos as últimas semanas da Era Temer. 

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terça-feira, 2 de outubro de 2018

Para socorrer indecisos e inseguros nas eleições

Não são poucas as pesquisas que apontam que cerca de 1/5 dos eleitores brasileiros (principalmente eleitoras) decidem seu voto apenas na semana final antes das eleições. Como são muitos votos em pouco tempo (deputado federal, deputado estadual, senador 1, senador 2, governador, presidente) é comum haver grande indecisão. 

A mesma internet que nos enche de fake news e grupos raivosos de whatsapp tem também ferramentas que ajudam a escolher em quem votar. Uma das mais importantes foi produzida pela equipe do lendário jornalista-ativista Lúcio BIG. Trata-se da ferramenta Ana Cândida

Ela é baseada no manual que Lúcio chama de Manifesto do Novo Eleitor. Pode ter detalhes sobre isto no Mynews:


Além disso, pense em alguns elementos para construir suas opções:

1 - Seus candidatos respondem perguntas em entrevistas? Se não respondem agora, imagine como serão com poder!

2 - Quem anda com eles é minimamente confiável?

3 - Há fatos do passado político/profissional que ele não quer explicar, ameaça processar quem divulga, se irrita quando se fala sem que esclareça?

4 - Você consegue imaginar o primeiro mês de mandato da pessoa?

Pense nisso e, se votar em Alagoas e ainda estiver indeciso aguardando sugestões mais diretas, segue abaixo a minha "cola" para o dia da votação:



Boa sorte para todos. Precisaremos em 2019.




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sábado, 14 de julho de 2018

A Copa do Mundo é um evento político

Há uma falsa dualidade antiga, desde que a TV começou a transmitir Copas do Mundo de Futebol, consiste em quem fica sob indignação por alienação provocada por eventos como esse, fazendo o povo ficar alheio à política. Se isso foi verdade um dia, hoje não passa de anacronismo, um argumento que não responde ao tempo atual. A própria Copa do Mundo é um evento político.

Assim como a Copa brasileira foi um espelho do superfaturamento de obras, com o país sob crise pagando por estádios faraônicos para alegria dos contratos com empreiteiras, a Copa russa tem a precisão típica de governos autoritários. Como o documentário Icarus da Netflix mostrou, foi justo o Comitê Olímpico Internacional tirar a Rússia das competições das Olimpíadas, devido ao doping com participação estatal. Por que pouco depois uma Copa naquele país? Considerando a situação jurídica de representantes da FIFA, não há porque se surpreender. É como pensar na importância para o futebol mundial que tem fazer a próxima Copa em Dubai. Hoje, com acesso instantâneo, fácil e plural às informações, podemos refletir sobre cada detalhe da política institucional envolvida, o que nem sempre foi possível. 

Antes do começo dos jogos na Rússia, foi constrangedor o Itamaraty ter divulgado uma cartilha para cuidados de homossexuais naquele país, por uma lei que criminaliza a homossexualidade. Tivemos uma resposta curiosa, com não russos mas brasileiros ficando famosos no mundo por atos de misoginia contra mulheres, filmando russas falando palavras obscenas em português para humilhação pública e publicando em suas redes sociais. Heterossexuais foram o problema, não gays. Foi nas redes sociais de torcedores brasileiros que mensagens racistas e ameaças surgiram contra jogadores negros, principalmente contra jogadores brasileiros negros. O inferno não são os russos, somos nós mesmos.

Por falar nisso, um grupo de amigos mostrou que protestar permite demonstrar formas de criatividade ao enfrentar essa limitação durante a Copa com um gesto simples. Caminhando com camisas que unidas mostravam a bandeira do movimento LGBTQ, espanhois fizeram o que chamaram de The Hidden Flag, caminhando pelas ruas de Moscou em defesa da diversidade sexual (para detalhes, clique aqui).


Para falar sobre atletas, foi relevante a frequência com que injustiças sociais de seus países fossem divulgadas. O jornal francês Le Monde constatou que 7 dos 11 titulares foram criados por suas mães sem os pais biológicos (clique aqui para ler a reportagem). De modo semelhante, para a final da Copa do Mundo, tem sido divulgado que a seleção da França, multiétnica, representa na ascendência dos seus atletas 15 países e que a Croácia é em sua maioria de filhos da guerra que dissolveu a Iugoslávia. A Geopolítica mundial com as contradições internas de cada nação não ficam em nada distantes da Copa do Mundo.

A presença de mulheres na torcida do Irã assim como pela primeira vez locutoras acompanhando os jogos foram  demonstrações de que o futebol está mudando. Contamos no Brasil com a primeira equipe inteira de comentaristas em uma emissora, porém as mudanças vão mais longe. A presença de uma jornalista na cobertura da maior emissora brasileira poderia ser notícia, mas a sua homossexualidade aumenta a relevância. Fernanda Gentil, consciente da representatividade que exerce, respondeu diversas perguntas em diversos programas da Rede Globo sobre as limitações a homossexuais naquele país. 

Se alguém ainda insistir que futebol é alienação, ouça seu radinho de pilha ouvindo discos de vinil e reclamando que bom mesmo era em seu tempo, alheio às transformações sociais. O tempo não pára, o futebol também não. 

Em tempo, parabéns ao treinador brasileiro Tite não apenas pelo bom trabalho (apesar da eliminação), mas por ter declarado sobre a seleção ser recebida por Michel Temer no caso de vitória na Copa: "Não vou para Brasília nem antes nem depois da Copa". Um discreto Fora Temer para reforçar a política no evento.

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sexta-feira, 13 de julho de 2018

Momentos de uma colação de grau social (por acaso, a minha)

Nessa semana, tive a minha colação de grau no curso de Licenciatura em Ciências Sociais. Foram anos corridos, com jornada quádrupla para dar conta bem, tanto que a sensação na semana foi mais de alívio do que de alegria, apesar dela aparecer. Porém, o tédio das solenidades pode deixar o olhar mais atento (diria agora, formado, que poderia ser exercício de imaginação sociológica...) para o que o cotidiano quer mostrar. Coisas interessantes acontecem em uma colação de grau social.

É comum que turmas se organizem e combinem com a instituição de ensino superior ou recebam uma data preestabelecida para esse ritual (que com um negócio sobre a cabeça inclinada com autoridade dizendo "confiro grau" fica bem religioso...). Porém, quando não ocorre o evento com a turma costuma ser na reitoria com estudantes misturados de diversos cursos. Literalmente, no meu caso, de A a Z (Administração a Zootecnia). Cerca de 70 pessoas.
Reitor, de azul

Essa variedade de curso e o número de formandos trazem algumas implicações relevantes para o que é se formar em uma universidade pública no século XXI. Durante a fala do vice-reitor, ele fez questão de saudar uma estudante travesti (que simpaticamente gritou "um beijo para as travestis!" ao pegar seu canudo), estudantes de diversas cidades do interior (que pediu que se levantassem para mostrar a relevância da universidade pública integrando oportunidades de estudos), estrangeiros, mostrando como a interiorização e o acesso gratuito têm um peso social incalculável.

Como me formei em uma turma do curso semipresencial, foi interessante não terem sido mencionados estudantes à distância. Afinal, o diploma é igual, sem distinções para evitar qualquer tipo de discriminação e porque a gestão e o projeto pedagógico são semelhantes aos cursos presenciais oferecidos.

Mas, voltemos ao que falou o vice-reitor um pouco. Saudou o respeito à identidade de gênero seja qual for (e não houve risos mas apenas aplausos àquele grito da estudante), classe social, origem, etnia e interrompeu sua fala para pedir que fosse à frente uma estudante de Guiné-Bissau, formada em Direito, para pedir desculpas por não ter o hino do seu país para ser cantado no começo da cerimônia.

Cumprimentos à graduada de Guiné-Bissau
Além disso, mencionou sutilmente que toda manifestação de "rebeldia" (e acenou para estudante à sua frente) era respeitada, como liberdade de expressão. Um formado em Ciências Biológicas exibia um visual de protesto (imagine e é isso aí) com óculos vermelhos, sendo único que não se levantou na hora de cantar o hino do país, manteve o punho cerrado na hora do juramento (uma funcionária forçou que abrisse o punho mas educadamente ele cochichou a razão no ouvido dela e ficou por isso mesmo), e agitava as mãos em vez de bater palmas quando aplaudir não interessava. Era desobediência civil? Má educação? Pirraça pós-adolescente? Importa apenas que não precisou se justificar em nenhum gesto e foi respeitado na sua manifestação solitária e silenciosa, respeitando o que era obrigatório na solenidade.

A universidade pública tem suas curiosidades. Fomos expressamente proibidos de sair com os simpáticos canudos porque "a universidade só tem esses" dizia a funcionária que gritava orientações diante da interminável fila de graduados que esperavam para entrar no auditório. Deviam ser devolvidos após colar grau e trocados por uma certidão. Devido a uma reforma no auditório da reitoria, usamos um auditório menor e menos solene do centro de convivência, com fotógrafos se atropelando para cumprir seus contratos e uma quantidade imensa de parentes de graduados. Fui e voltei só, mas com toda felicidade de parentes e amigos que acompanhavam "onlinemente" a situação inteira. 

O canudo simpático
Mas, os oradores que tivemos, três, eram um diferencial interessante. Respectivamente, graduados em Ciências Contábeis, Engenharia Civil e Filosofia, destacaram ser de um campus do interior sendo primeiro da família a se graduar e precisando se deslocar para a capital para ter sua colação de grau; o peso do assédio moral de colegas e professores no dia a dia sendo algo que a universidade precisa intervir; e, no caso de Anobelino Martins, formado em Filosofia, o momento mais precioso. Com discurso que já levou pronto (conheço ele, não me convence que seria improviso) ofereceu-se naquela fila infame para ser um dos oradores.


Não quis assistir ao vídeo? Ok, eu resumo: Lembrou o esforço dos pais, pernambucanos migrantes para São Luiz do Quitunde, de sertão em sertão na pobreza e na lavoura mas com todo esforço para que todos os sete filhos pudessem se formar, estudando o que sonhavam, e ele repetia carinhosamente que pôde escolher Filosofia. E por que falar tanto no simpático canudo? Anobelino lembrou bem que a ausência do diploma não pesava, afinal era uma representação do canudo, como a colação é representação do fechamento de um ciclo e estarmos ali era a representação de um ambiente familiar, de uma integração para mostrar os fins da universidade. Falou bonito.

Dizia o vice-reitor que formam 2.700 estudantes por ano, com 10% do orçamento de anos atrás e diversos esforços diários para que recursos sejam liberados. Mesmo assim, era visível do lado de fora o empenho para a realização da reunião da SBPC, pela primeira vez em Maceió. A teimosia da ciência não para, não adianta o presidente incomodar. A propósito, ninguém gritou "Fora Temer", senti falta...

Este blog começou como organização das ideias durante o Mestrado em Sociologia, estudando movimentos sociais e falando sobre eles por aqui, há uns 10 anos (sempre erro quando começou exatamente). Agora, completo esta formação com a graduação em Ciências Sociais e voltando na monografia para a conclusão do curso a estudar ideologias de determinado tempo. Se um ciclo que se fecha ou que se renova, depende da perspectiva adotada. Porém, poder ver tantas implicações em três horas lentas e cansativas de solenidade é consequência desses quatro anos de aprendizado e dessa estrada que vai ganhando novos tijolos.


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domingo, 8 de julho de 2018

Cocielo e Whindersson ensinando contra discriminação


Nas duas últimas semanas, dois dos youtubers brasileiros com maior número de inscritos em vlogs, Júlio Cocielo e Whindersson Nunes, tiveram atos de discriminação e têm muito o que ensinar com suas atitudes. Cocielo comentava quase aleatoriamente o que julgava engraçado nos jogos da Copa do Mundo da Rússia quando fez um comentário racista sobre um jogador. Foi criticado (o Twitter é rápido para dar respostas), pediu desculpas mas seus seguidores desenterraram mensagens racistas de anos anteriores, fazendo com que ele apagasse todas as mensagens deixando apenas um longo pedido de desculpas novo. Whindersson imitava um intérprete de Libras no Altas Horas. Surpreso com a reação negativa do que julgava ser piada, comprometeu-se publicamente a aprender Libras e não fazer mais isso. Deixo os vídeos de desculpas dos dois para comentar mais em seguida. 






No 1o vídeo, Júlio Cocielo levanta dois aspectos relevantes. É comum que Youtubers não estudem além dos aspectos técnicos de som e vídeo para seus canais, por vezes com cursos de e-commerce, mas sem leituras sobre a sociedade. Comentários do dia a dia com roteiros leves são a marca de ambos. Assim, faz sentido quando ele afirma que foi racista, escrevia o que foi desenterrado de anos atrás com 15, 16 anos de idade. Agora, manifestava-se sem escolher bem as palavras fazendo vergonha para a família, os amigos (sempre deixa seguidores para depois) por precisar entender melhor o que era racismo. Agradece àqueles que pararam para explicar em comentários e pessoalmente onde ele errou. 

No 2o vídeo, após as piadas que foram consideradas por surdos e militantes de direitos de pessoas com deficiência como ridicularizar a língua dos sinais, perceba o empenho de Whindersson em usar sinais para se comunicar em diversos momentos do vídeo bem como alega a própria ignorância e necessidade de estudar o assunto durante o vídeo.

São duas confissões com honestidade, reconhecendo não apenas erros mas que não conheciam o assunto e precisavam melhorar como pessoas. Apenas podemos melhorar nossa convivência social partindo desses pressupostos para combater preconceitos. Condená-los on-line como imperdoáveis e para sempre preconceituosos seria retroceder para marcas gravadas na pele como com feiticeiras medievais. Superamos essa fase, pelo menos assim espero.

Porém, com a popularização das redes sociais e considerando que a massa da audiência deles é bem jovem (e milhões de pessoas) é preciso ter cautela com o hábito que surgiu de garimpar mensagens antigas. Isto beira a fake news, pois ficam fora de contexto, mensagens rápidas normalmente do Twitter, sem saber o que estava no fluxo de pensamento do momento, a idade, a escolaridade, como diria Cocielo a estupidez naquela época presumindo que não amadureceram nada em anos. 

O jornalista Gilberto Dimenstein tentou crucificar um terceiro youtuber, garimpando uma mensagem supostamente misógina de Felipe Castanhari de seis anos atrás. Seis anos. Não encontrou um vídeo, um textão de Facebook, uma entrevista, nada recente com texto completo? Informou, uma vez que se orgulha de ter 40 anos de jornalismo, em que contexto a imbecilidade fora dita? Para fazer papel de jornalista, falou com Castanhari antes de publicar, sobre o que ele pensa daquilo? Nada. Assim, banaliza com péssima abordagem um assunto que é muito sério e legitima uma prática que desinforma, de procurar frases isoladas, fora de contexto e do seu tempo.

Como ele muitos outros se manifestaram usando buscas no histórico e condenando quem correu para apagar todo o próprio histórico. Isso não é condenável, apagar mensagens passadas, há aplicativos simples e gratuitos que fazem isso. É medida até de segurança, para não deixar rastros sobre os próprios hábitos, informações valiosas para hackers. Para quem começou a escrever ou gravar vídeos com pouca ou nenhuma responsabilidade e hoje fala para milhões, é amadurecimento apagar as mensagens do começo, quando não pensava antes de falar. Quem quiser considerar que o motivo seriam contratos publicitários, o medo de perdê-los, Felipe Neto, sobre o mesmo assunto, informou que todos os youtubers com mais visibilidade no país (citou a si mesmo, seu irmão, Resende e outros exemplos) não têm patrocinadores mas apagam, sim, as mensagens, porque não vão ficar se responsabilizando em se explicar sobre opiniões que não defendem mais. Justo.

Deixo, por fim, mais dois vídeos com reflexões pertinentes sobre o assunto, de dois youtubers que não têm o mesmo perfil dos dois anteriores, temáticas bem distintas (um canal sobre tecnologia e outro de divulgação científica) que pararam para refletir sobre a responsabilidade no ambiente onde trabalham.






É preciso, portanto, seja fazendo humor seja com crônicas do cotidiano, perceber que falamos para o mundo quando orbitamos espaços virtuais. É preciso pensar no outro, em quem recebe aquela informação, bem como entender os fatos que comentam, para evitar constrangimentos e atitudes criminosas como o racismo.

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terça-feira, 10 de abril de 2018

Lula preso e livre



No último sábado, o Brasil parou para acompanhar a prisão do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva. Não pretendo examinar juridicamente, pois não li os autos do processo e não sou especialista em Processo Penal, ao contrário de boa parte da militância que grita ausência de provas sem ler. Tudo que juridicamente posso afirmar: por não ter foro privilegiado e pelo Estatuto do Idoso (réu acima dos 70 anos de idade), Lula foi julgado com mais celeridade do que outros processados pela Operação Lava Jato. Se muito mais rápido, estão presos Paulo Maluf, Eduardo Cunha, assessores parlamentares, empreiteiros todos desvinculados ao PT. Não vejo perseguição ao partido, mas uma investigação policial que, nos últimos dias, alcançou Delfim Netto, indo cada vez mais no passado podre da política brasileira. 

Examinemos politicamente os fatos de sábado até hoje. Não por fake news, como os vídeos recortados e interrompidos por narradores anônimos afirmando que Lula estaria bêbado ou bebendo cachaça enquanto falava, sinais de desprezo pela política adulta por parte de quem divulgava os vídeos que nada comprovam.

Lula não se entregou na sexta-feira, como previa o mandado de prisão do juiz Sérgio Moro, proferido estranhamente em minutos após o despacho do TRF. Foi um gesto político, para mostrar que ainda divergia, que se contrapunha ideologicamente àquele magistrado e que continuaria na batalha. Fez sentido apenas se entregar negociando com a Polícia Federal no dia seguinte.

Voltando ao ninho de sua biografia política em São Bernardo, Lula não se escondeu em casa para tentar apenas se entregar na segunda-feira, mas subiu em um palanque para discursar aos militantes sindicalistas e petistas que o cercavam. Mas não só isso. Aconteceu muito mais. Ele saudou como jovens lideranças em quem ele confiava Manuela Dávila, do PCdoB, e Guilherme Boulos, do PSOL. Apesar de cumprimentos a Fernando Haddad, do PT, não havia cumprimentos como políticos jovens promissores do próprio partido de Lula. Apenas gestos de despedida e gratidão para amigos e aliados de décadas.

Estavam naquele palanque representantes de partidos de esquerda, solidários a Lula. Não se trata de dizer que ele seja completamente inocente, mas da gratidão justa daqueles que tiveram em algum momento da própria história o ex-presidente como norte, inspiração, para as próprias carreiras. Lula é a maior liderança política da esquerda brasileira e um dos mais influentes políticos das Américas (The Man, dizia Obama). Nada mais justo do que ter um momento de derrota tão grande entre pessoas ideologicamente próximas. Curiosa para as próximas semanas e para as eleições desse ano foi a ausência de Ciro Gomes.

Hoje, uma comitiva de 11 governadores da base aliada foram a Curitiba visitar Lula preso. Diversos outros parlamentares acompanharam e muitos outros organizam agenda para fazer o mesmo. Logo, o palanque de Lula, ao contrário do que o senso comum de direita poderia resmungar, não foi uma palhaçada, exibicionismo, mas gesto simbólico mostrando o capital político de que ele ainda dispõe.

ADCs serão julgadas pelo STF e dois recursos no TRF, sem contar um no STJ. Logo, quando alguém afirma que o mandado de prisão pode ter sido precipitado, faz sentido, cabendo discordar ou concordar, mas o Direito não é ciência exata, flutua de acordo com os magistrados que julgam e passando por um STF que tem mudado de posição com uma velocidade grave para a sociedade brasileira. Gilmar Mendes antes defendia a prisão de Lula, votou contra. Rosa Weber afirmou que julgava contra as próprias convicções e que julgaria diferente futuramente. Luis Roberto Barroso falou que julgaria ouvindo o clamor social, seja lá o que isso signifique em um país dividido.

Muitas águas correrão. O PT propõe aproximação com PCdoB e PSOL e se mantém sem alternativas políticas a Lula. Preferem um candidato fazendo campanha da sala do Estado Maior que ocupa ou parecendo usar liberdade provisória para evitar pela eleição ser preso novamente. Há anos Lula tem sido um obtáculo para a renovação política do partido, com os mesmos nomes (cabeças brancas, diriam no PSDB) fazendo de tudo para permanecer no poder.

Voltando ao discurso. O ex-presidente aproveitou seu discurso para mostrar desprezo ao estudo, mais uma vez. Em seus discursos, isso é constante. Poderia ter falado sobre a expansão do ensino superior em seu governo, mas a menção a educação foi para falar que tudo que precisou aprender sobre Política e Sociologia aprendeu no chão da fábrica. Já fez isso muitas vezes antes. Fez acusações à imprensa, sendo aquele o dia da imprensa no calendário brasileiro e recebendo ampla cobertura nacional do seu discurso por todos os jornais. Antipático com a educação formal e a imprensa livre, duas palavras de ordem constantes quando foi presidente. 

Chamou de criminosos promotores, procuradores, delegados, menos ministros do STF, ainda aguarda recursos serem julgados. Afirmou que deixou de ser um homem para ser uma ideia. Para alguém que é um símbolo vivo para parte da esquerda brasileira, não é uma afirmação absurda. Líderes carismáticos são assim. Estranho apenas é ele mesmo afirmar isso, o autoelogio na política sempre soa arrogante. 

No dia da imprensa, o ex-presidente não pediu paz (diferente de Mandela preso) e provocou sobre a mídia assim como jornalistas da CBN, Estado de São Paulo, TV Cultura, Bandeirantes entre tantos outros órgãos de imprensa foram agredidos ou ameaçados. Para um político e seu partido que reclamam de pouca cobertura do que fazem, agredir os jornalistas mostra alguma contradição.

O que pode vir agora. A editora Boitempo manifestou-se de um modo inteligente, lançando um ebook gratuito sobre Lula no mesmo dia. O próprio falou sobre sua biografia, apresentando no palanque seu biógrafo. Eu não ficaria surpreso com cartas do cárcere sendo publicadas. A sucessão de visitas que receberá, a presidente do partido como sua porta-voz oficial fora das grades, a vigília militante ao redor da carceragem da Polícia Federal fazem com que esta prisão ainda não tenha começado, a voz dele continua solta.

Um ex-presidente preso, inocente ou culpado, é constrangedor. Parte da política brasileira não se manifestar, também. Muitos outros estarem a poucos passos de acompanhá-lo em celas vizinhas, é ainda pior. Um fascista que faz apologia ao estupro ser celebrado politicamente apenas porque ainda não foi condenado é ainda pior. No fim, identificar o que é pior é a grande dificuldade na comédia de erros e crimes da política brasileira. Para como consertar, para tentar encerrar um texto inconcluso sobre fatos em andamento, apenas lembrando Winston Churchill. Pois, se em um ano de eleições há tantos abalos em nossa  representatividade democrática, a única solução para os erros na democracia é mais democracia.

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