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sábado, 14 de julho de 2018

A Copa do Mundo é um evento político

Há uma falsa dualidade antiga, desde que a TV começou a transmitir Copas do Mundo de Futebol, consiste em quem fica sob indignação por alienação provocada por eventos como esse, fazendo o povo ficar alheio à política. Se isso foi verdade um dia, hoje não passa de anacronismo, um argumento que não responde ao tempo atual. A própria Copa do Mundo é um evento político.

Assim como a Copa brasileira foi um espelho do superfaturamento de obras, com o país sob crise pagando por estádios faraônicos para alegria dos contratos com empreiteiras, a Copa russa tem a precisão típica de governos autoritários. Como o documentário Icarus da Netflix mostrou, foi justo o Comitê Olímpico Internacional tirar a Rússia das competições das Olimpíadas, devido ao doping com participação estatal. Por que pouco depois uma Copa naquele país? Considerando a situação jurídica de representantes da FIFA, não há porque se surpreender. É como pensar na importância para o futebol mundial que tem fazer a próxima Copa em Dubai. Hoje, com acesso instantâneo, fácil e plural às informações, podemos refletir sobre cada detalhe da política institucional envolvida, o que nem sempre foi possível. 

Antes do começo dos jogos na Rússia, foi constrangedor o Itamaraty ter divulgado uma cartilha para cuidados de homossexuais naquele país, por uma lei que criminaliza a homossexualidade. Tivemos uma resposta curiosa, com não russos mas brasileiros ficando famosos no mundo por atos de misoginia contra mulheres, filmando russas falando palavras obscenas em português para humilhação pública e publicando em suas redes sociais. Heterossexuais foram o problema, não gays. Foi nas redes sociais de torcedores brasileiros que mensagens racistas e ameaças surgiram contra jogadores negros, principalmente contra jogadores brasileiros negros. O inferno não são os russos, somos nós mesmos.

Por falar nisso, um grupo de amigos mostrou que protestar permite demonstrar formas de criatividade ao enfrentar essa limitação durante a Copa com um gesto simples. Caminhando com camisas que unidas mostravam a bandeira do movimento LGBTQ, espanhois fizeram o que chamaram de The Hidden Flag, caminhando pelas ruas de Moscou em defesa da diversidade sexual (para detalhes, clique aqui).


Para falar sobre atletas, foi relevante a frequência com que injustiças sociais de seus países fossem divulgadas. O jornal francês Le Monde constatou que 7 dos 11 titulares foram criados por suas mães sem os pais biológicos (clique aqui para ler a reportagem). De modo semelhante, para a final da Copa do Mundo, tem sido divulgado que a seleção da França, multiétnica, representa na ascendência dos seus atletas 15 países e que a Croácia é em sua maioria de filhos da guerra que dissolveu a Iugoslávia. A Geopolítica mundial com as contradições internas de cada nação não ficam em nada distantes da Copa do Mundo.

A presença de mulheres na torcida do Irã assim como pela primeira vez locutoras acompanhando os jogos foram  demonstrações de que o futebol está mudando. Contamos no Brasil com a primeira equipe inteira de comentaristas em uma emissora, porém as mudanças vão mais longe. A presença de uma jornalista na cobertura da maior emissora brasileira poderia ser notícia, mas a sua homossexualidade aumenta a relevância. Fernanda Gentil, consciente da representatividade que exerce, respondeu diversas perguntas em diversos programas da Rede Globo sobre as limitações a homossexuais naquele país. 

Se alguém ainda insistir que futebol é alienação, ouça seu radinho de pilha ouvindo discos de vinil e reclamando que bom mesmo era em seu tempo, alheio às transformações sociais. O tempo não pára, o futebol também não. 

Em tempo, parabéns ao treinador brasileiro Tite não apenas pelo bom trabalho (apesar da eliminação), mas por ter declarado sobre a seleção ser recebida por Michel Temer no caso de vitória na Copa: "Não vou para Brasília nem antes nem depois da Copa". Um discreto Fora Temer para reforçar a política no evento.

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sexta-feira, 13 de julho de 2018

Momentos de uma colação de grau social (por acaso, a minha)

Nessa semana, tive a minha colação de grau no curso de Licenciatura em Ciências Sociais. Foram anos corridos, com jornada quádrupla para dar conta bem, tanto que a sensação na semana foi mais de alívio do que de alegria, apesar dela aparecer. Porém, o tédio das solenidades pode deixar o olhar mais atento (diria agora, formado, que poderia ser exercício de imaginação sociológica...) para o que o cotidiano quer mostrar. Coisas interessantes acontecem em uma colação de grau social.

É comum que turmas se organizem e combinem com a instituição de ensino superior ou recebam uma data preestabelecida para esse ritual (que com um negócio sobre a cabeça inclinada com autoridade dizendo "confiro grau" fica bem religioso...). Porém, quando não ocorre o evento com a turma costuma ser na reitoria com estudantes misturados de diversos cursos. Literalmente, no meu caso, de A a Z (Administração a Zootecnia). Cerca de 70 pessoas. 
Reitor, de azul

Essa variedade de curso e o número de formandos trazem algumas implicações relevantes para o que é se formar em uma universidade pública no século XXI. Durante a fala do vice-reitor, ele fez questão de saudar uma estudante travesti (que simpaticamente gritou "um beijo para as travestis!" ao pegar seu canudo), estudantes de diversas cidades do interior (que pediu que se levantassem para mostrar a relevância da universidade pública integrando oportunidades de estudos), estrangeiros, mostrando como a interiorização e o acesso gratuito têm um peso social incalculável.

Como me formei em uma turma do curso semipresencial, foi interessante não terem sido mencionados estudantes à distância. Afinal, o diploma é igual, sem distinções para evitar qualquer tipo de discriminação e porque a gestão e o projeto pedagógico são semelhantes aos cursos presenciais oferecidos.

Mas, voltemos ao que falou o vice-reitor um pouco. Saudou o respeito à identidade de gênero seja qual for (e não houve risos mas apenas aplausos àquele grito da estudante), classe social, origem, etnia e interrompeu sua fala para pedir que fosse à frente uma estudante de Guiné-Bissau, formada em Direito, para pedir desculpas por não ter o hino do seu país para ser cantado no começo da cerimônia.

Cumprimentos à graduada de Guiné-Bissau
Além disso, mencionou sutilmente que toda manifestação de "rebeldia" (e acenou para estudante à sua frente) era respeitada, como liberdade de expressão. Um formado em Ciências Biológicas exibia um visual de protesto (imagine e é isso aí) com óculos vermelhos, sendo único que não se levantou na hora de cantar o hino do país, manteve o punho cerrado na hora do juramento (uma funcionária forçou que abrisse o punho mas educadamente ele cochichou a razão no ouvido dela e ficou por isso mesmo), e agitava as mãos em vez de bater palmas quando aplaudir não interessava. Era desobediência civil? Má educação? Pirraça pós-adolescente? Importa apenas que não precisou se justificar em nenhum gesto e foi respeitado na sua manifestação solitária e silenciosa, respeitando o que era obrigatório na solenidade. 

A universidade pública tem suas curiosidades. Fomos expressamente proibidos de sair com os simpáticos canudos porque "a universidade só tem esses" dizia a funcionária que gritava orientações diante da interminável fila de graduados que esperavam para entrar no auditório. Deviam ser devolvidos após colar grau e trocados por uma certidão. Devido a uma reforma no auditório da reitoria, usamos um auditório menor e menos solene do centro de convivência, com fotógrafos se atropelando para cumprir seus contratos e uma quantidade imensa de parentes de graduados. Fui e voltei só, mas com toda felicidade de parentes e amigos que acompanhavam "onlinemente" a situação inteira. 

O canudo simpático
Mas, os oradores que tivemos, três, eram um diferencial interessante. Respectivamente, graduados em Ciências Contábeis, Engenharia Civil e Filosofia, destacaram ser de um campus do interior sendo primeiro da família a se graduar e precisando se deslocar para a capital para ter sua colação de grau; o peso do assédio moral de colegas e professores no dia a dia sendo algo que a universidade precisa intervir; e, no caso de Anobelino Martins, formado em Filosofia, o momento mais precioso. Com discurso que já levou pronto (conheço ele, não me convence que seria improviso) ofereceu-se naquela fila infame para ser um dos oradores. Lembrou o esforço dos pais, pernambucanos migrantes para São Luiz do Quitunde, de sertão em sertão na pobreza e na lavoura mas com todo esforço para que todos os sete filhos pudessem se formar, estudando o que sonhavam, e ele repetia carinhosamente que pôde escolher Filosofia. E por que falar tanto no simpático canudo? Anobelino lembrou bem que a ausência do diploma não pesava, afinal era uma representação do canudo, como a colação é representação do fechamento de um ciclo e estarmos ali era a representação de um ambiente familiar, de uma integração para mostrar os fins da universidade. Falou bonito. 

Anobelino

Dizia o vice-reitor que formam 2.700 estudantes por ano, com 10% do orçamento de anos atrás e diversos esforços diários para que recursos sejam liberados. Mesmo assim, era visível do lado de fora o empenho para a realização da reunião da SBPC, pela primeira vez em Maceió. A teimosia da ciência não para, não adianta o presidente incomodar. A propósito, ninguém gritou "Fora Temer", senti falta...

Este blog começou como organização das ideias durante o Mestrado em Sociologia, estudando movimentos sociais e falando sobre eles por aqui, há uns 10 anos (sempre erro quando começou exatamente). Agora, completo esta formação com a graduação em Ciências Sociais e voltando na monografia para a conclusão do curso a estudar ideologias de determinado tempo. Se um ciclo que se fecha ou que se renova, depende da perspectiva adotada. Porém, poder ver tantas implicações em três horas lentas e cansativas de solenidade é consequência desses quatro anos de aprendizado e dessa estrada que vai ganhando novos tijolos.


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domingo, 8 de julho de 2018

Cocielo e Whindersson ensinando contra discriminação


Nas duas últimas semanas, dois dos youtubers brasileiros com maior número de inscritos em vlogs, Júlio Cocielo e Whindersson Nunes, tiveram atos de discriminação e têm muito o que ensinar com suas atitudes. Cocielo comentava quase aleatoriamente o que julgava engraçado nos jogos da Copa do Mundo da Rússia quando fez um comentário racista sobre um jogador. Foi criticado (o Twitter é rápido para dar respostas), pediu desculpas mas seus seguidores desenterraram mensagens racistas de anos anteriores, fazendo com que ele apagasse todas as mensagens deixando apenas um longo pedido de desculpas novo. Whindersson imitava um intérprete de Libras no Altas Horas. Surpreso com a reação negativa do que julgava ser piada, comprometeu-se publicamente a aprender Libras e não fazer mais isso. Deixo os vídeos de desculpas dos dois para comentar mais em seguida. 






No 1o vídeo, Júlio Cocielo levanta dois aspectos relevantes. É comum que Youtubers não estudem além dos aspectos técnicos de som e vídeo para seus canais, por vezes com cursos de e-commerce, mas sem leituras sobre a sociedade. Comentários do dia a dia com roteiros leves são a marca de ambos. Assim, faz sentido quando ele afirma que foi racista, escrevia o que foi desenterrado de anos atrás com 15, 16 anos de idade. Agora, manifestava-se sem escolher bem as palavras fazendo vergonha para a família, os amigos (sempre deixa seguidores para depois) por precisar entender melhor o que era racismo. Agradece àqueles que pararam para explicar em comentários e pessoalmente onde ele errou. 

No 2o vídeo, após as piadas que foram consideradas por surdos e militantes de direitos de pessoas com deficiência como ridicularizar a língua dos sinais, perceba o empenho de Whindersson em usar sinais para se comunicar em diversos momentos do vídeo bem como alega a própria ignorância e necessidade de estudar o assunto durante o vídeo.

São duas confissões com honestidade, reconhecendo não apenas erros mas que não conheciam o assunto e precisavam melhorar como pessoas. Apenas podemos melhorar nossa convivência social partindo desses pressupostos para combater preconceitos. Condená-los on-line como imperdoáveis e para sempre preconceituosos seria retroceder para marcas gravadas na pele como com feiticeiras medievais. Superamos essa fase, pelo menos assim espero.

Porém, com a popularização das redes sociais e considerando que a massa da audiência deles é bem jovem (e milhões de pessoas) é preciso ter cautela com o hábito que surgiu de garimpar mensagens antigas. Isto beira a fake news, pois ficam fora de contexto, mensagens rápidas normalmente do Twitter, sem saber o que estava no fluxo de pensamento do momento, a idade, a escolaridade, como diria Cocielo a estupidez naquela época presumindo que não amadureceram nada em anos. 

O jornalista Gilberto Dimenstein tentou crucificar um terceiro youtuber, garimpando uma mensagem supostamente misógina de Felipe Castanhari de seis anos atrás. Seis anos. Não encontrou um vídeo, um textão de Facebook, uma entrevista, nada recente com texto completo? Informou, uma vez que se orgulha de ter 40 anos de jornalismo, em que contexto a imbecilidade fora dita? Para fazer papel de jornalista, falou com Castanhari antes de publicar, sobre o que ele pensa daquilo? Nada. Assim, banaliza com péssima abordagem um assunto que é muito sério e legitima uma prática que desinforma, de procurar frases isoladas, fora de contexto e do seu tempo.

Como ele muitos outros se manifestaram usando buscas no histórico e condenando quem correu para apagar todo o próprio histórico. Isso não é condenável, apagar mensagens passadas, há aplicativos simples e gratuitos que fazem isso. É medida até de segurança, para não deixar rastros sobre os próprios hábitos, informações valiosas para hackers. Para quem começou a escrever ou gravar vídeos com pouca ou nenhuma responsabilidade e hoje fala para milhões, é amadurecimento apagar as mensagens do começo, quando não pensava antes de falar. Quem quiser considerar que o motivo seriam contratos publicitários, o medo de perdê-los, Felipe Neto, sobre o mesmo assunto, informou que todos os youtubers com mais visibilidade no país (citou a si mesmo, seu irmão, Resende e outros exemplos) não têm patrocinadores mas apagam, sim, as mensagens, porque não vão ficar se responsabilizando em se explicar sobre opiniões que não defendem mais. Justo.

Deixo, por fim, mais dois vídeos com reflexões pertinentes sobre o assunto, de dois youtubers que não têm o mesmo perfil dos dois anteriores, temáticas bem distintas (um canal sobre tecnologia e outro de divulgação científica) que pararam para refletir sobre a responsabilidade no ambiente onde trabalham.






É preciso, portanto, seja fazendo humor seja com crônicas do cotidiano, perceber que falamos para o mundo quando orbitamos espaços virtuais. É preciso pensar no outro, em quem recebe aquela informação, bem como entender os fatos que comentam, para evitar constrangimentos e atitudes criminosas como o racismo.

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terça-feira, 10 de abril de 2018

Lula preso e livre



No último sábado, o Brasil parou para acompanhar a prisão do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva. Não pretendo examinar juridicamente, pois não li os autos do processo e não sou especialista em Processo Penal, ao contrário de boa parte da militância que grita ausência de provas sem ler. Tudo que juridicamente posso afirmar: por não ter foro privilegiado e pelo Estatuto do Idoso (réu acima dos 70 anos de idade), Lula foi julgado com mais celeridade do que outros processados pela Operação Lava Jato. Se muito mais rápido, estão presos Paulo Maluf, Eduardo Cunha, assessores parlamentares, empreiteiros todos desvinculados ao PT. Não vejo perseguição ao partido, mas uma investigação policial que, nos últimos dias, alcançou Delfim Netto, indo cada vez mais no passado podre da política brasileira. 

Examinemos politicamente os fatos de sábado até hoje. Não por fake news, como os vídeos recortados e interrompidos por narradores anônimos afirmando que Lula estaria bêbado ou bebendo cachaça enquanto falava, sinais de desprezo pela política adulta por parte de quem divulgava os vídeos que nada comprovam.

Lula não se entregou na sexta-feira, como previa o mandado de prisão do juiz Sérgio Moro, proferido estranhamente em minutos após o despacho do TRF. Foi um gesto político, para mostrar que ainda divergia, que se contrapunha ideologicamente àquele magistrado e que continuaria na batalha. Fez sentido apenas se entregar negociando com a Polícia Federal no dia seguinte.

Voltando ao ninho de sua biografia política em São Bernardo, Lula não se escondeu em casa para tentar apenas se entregar na segunda-feira, mas subiu em um palanque para discursar aos militantes sindicalistas e petistas que o cercavam. Mas não só isso. Aconteceu muito mais. Ele saudou como jovens lideranças em quem ele confiava Manuela Dávila, do PCdoB, e Guilherme Boulos, do PSOL. Apesar de cumprimentos a Fernando Haddad, do PT, não havia cumprimentos como políticos jovens promissores do próprio partido de Lula. Apenas gestos de despedida e gratidão para amigos e aliados de décadas.

Estavam naquele palanque representantes de partidos de esquerda, solidários a Lula. Não se trata de dizer que ele seja completamente inocente, mas da gratidão justa daqueles que tiveram em algum momento da própria história o ex-presidente como norte, inspiração, para as próprias carreiras. Lula é a maior liderança política da esquerda brasileira e um dos mais influentes políticos das Américas (The Man, dizia Obama). Nada mais justo do que ter um momento de derrota tão grande entre pessoas ideologicamente próximas. Curiosa para as próximas semanas e para as eleições desse ano foi a ausência de Ciro Gomes.

Hoje, uma comitiva de 11 governadores da base aliada foram a Curitiba visitar Lula preso. Diversos outros parlamentares acompanharam e muitos outros organizam agenda para fazer o mesmo. Logo, o palanque de Lula, ao contrário do que o senso comum de direita poderia resmungar, não foi uma palhaçada, exibicionismo, mas gesto simbólico mostrando o capital político de que ele ainda dispõe.

ADCs serão julgadas pelo STF e dois recursos no TRF, sem contar um no STJ. Logo, quando alguém afirma que o mandado de prisão pode ter sido precipitado, faz sentido, cabendo discordar ou concordar, mas o Direito não é ciência exata, flutua de acordo com os magistrados que julgam e passando por um STF que tem mudado de posição com uma velocidade grave para a sociedade brasileira. Gilmar Mendes antes defendia a prisão de Lula, votou contra. Rosa Weber afirmou que julgava contra as próprias convicções e que julgaria diferente futuramente. Luis Roberto Barroso falou que julgaria ouvindo o clamor social, seja lá o que isso signifique em um país dividido.

Muitas águas correrão. O PT propõe aproximação com PCdoB e PSOL e se mantém sem alternativas políticas a Lula. Preferem um candidato fazendo campanha da sala do Estado Maior que ocupa ou parecendo usar liberdade provisória para evitar pela eleição ser preso novamente. Há anos Lula tem sido um obtáculo para a renovação política do partido, com os mesmos nomes (cabeças brancas, diriam no PSDB) fazendo de tudo para permanecer no poder.

Voltando ao discurso. O ex-presidente aproveitou seu discurso para mostrar desprezo ao estudo, mais uma vez. Em seus discursos, isso é constante. Poderia ter falado sobre a expansão do ensino superior em seu governo, mas a menção a educação foi para falar que tudo que precisou aprender sobre Política e Sociologia aprendeu no chão da fábrica. Já fez isso muitas vezes antes. Fez acusações à imprensa, sendo aquele o dia da imprensa no calendário brasileiro e recebendo ampla cobertura nacional do seu discurso por todos os jornais. Antipático com a educação formal e a imprensa livre, duas palavras de ordem constantes quando foi presidente. 

Chamou de criminosos promotores, procuradores, delegados, menos ministros do STF, ainda aguarda recursos serem julgados. Afirmou que deixou de ser um homem para ser uma ideia. Para alguém que é um símbolo vivo para parte da esquerda brasileira, não é uma afirmação absurda. Líderes carismáticos são assim. Estranho apenas é ele mesmo afirmar isso, o autoelogio na política sempre soa arrogante. 

No dia da imprensa, o ex-presidente não pediu paz (diferente de Mandela preso) e provocou sobre a mídia assim como jornalistas da CBN, Estado de São Paulo, TV Cultura, Bandeirantes entre tantos outros órgãos de imprensa foram agredidos ou ameaçados. Para um político e seu partido que reclamam de pouca cobertura do que fazem, agredir os jornalistas mostra alguma contradição.

O que pode vir agora. A editora Boitempo manifestou-se de um modo inteligente, lançando um ebook gratuito sobre Lula no mesmo dia. O próprio falou sobre sua biografia, apresentando no palanque seu biógrafo. Eu não ficaria surpreso com cartas do cárcere sendo publicadas. A sucessão de visitas que receberá, a presidente do partido como sua porta-voz oficial fora das grades, a vigília militante ao redor da carceragem da Polícia Federal fazem com que esta prisão ainda não tenha começado, a voz dele continua solta.

Um ex-presidente preso, inocente ou culpado, é constrangedor. Parte da política brasileira não se manifestar, também. Muitos outros estarem a poucos passos de acompanhá-lo em celas vizinhas, é ainda pior. Um fascista que faz apologia ao estupro ser celebrado politicamente apenas porque ainda não foi condenado é ainda pior. No fim, identificar o que é pior é a grande dificuldade na comédia de erros e crimes da política brasileira. Para como consertar, para tentar encerrar um texto inconcluso sobre fatos em andamento, apenas lembrando Winston Churchill. Pois, se em um ano de eleições há tantos abalos em nossa  representatividade democrática, a única solução para os erros na democracia é mais democracia.

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sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

O Movimento dos Movimentos em e-book na Amazon


O ano começa bem!

Tive, nos últimos dias de 2017, e-book com José Marques de Vasconcelos Filho publicado, já comentado aqui, sobre Ativismo Digital Brasileiro. Devido a termos vencido um edital, foi patrocinado pela Fundação Perseu Abramo e disponibilizado gratuitamente no site da instituição.

Agora, um inesperado relançamento 100% digital. O livro de onde surgiu esse blog, O Movimento dos Movimentos, para Kindle. O sistema é ótimo. Tem como construir a capa por conta própria, o preço é convertido para todos os sites da Amazon no mundo, fornecem muitas dicas durante a venda on-line e o autor ganha um site lá para que os leitores o conheçam um pouco mais. Desde segunda-feira está disponível na maior plataforma para leitura digital do mundo (e nós pernambucanos adoramos poder usar "... do mundo" em uma frase!)

Este livro é adaptação da minha dissertação de mestrado, publicado por eu ter vencido um concurso cultural da Secretaria de Cultura da Prefeitura de Manaus (logo ali). O prêmio de cada categoria (a minha era Ensaios - Prêmio Samuel Benchimol) era em parte em dinheiro, em parte uma bela plaquinha e a publicação do livro. Sem querer parecer ingrato com Manaus, mas a capa ficou bem mais bonita agora...

Publicado originalmente em tiragem bem limitada em 2007, ganhou 11 anos depois uma versão digital que, apesar de estar à venda, quem for assinante do serviço Kindle Unlimited (em que paga um valor fixo e lê quantos livros do serviço quiser) pode ler sem pagar a mais.

O Kindle, no aplicativo ou em aparelhos, permite também ler uma amostra, baixando parte do livro temporariamente para poder ver se se interessa antes da compra.


Para quem quiser conhecê-lo, basta clicar aqui.

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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Por que não preciso ter posição sobre o julgamento de Lula

Não tenho posição porque não li o processo, não devo ter e, diante de um colegiado de um tribunal que segue o que exige o Código de Processo Penal e a Constituição Federal seria patológico pressupor conspiração política.

É triste que pessoas inteligentes estejam preferindo pressupor que o Judiciário inteiro, com a Polícia Federal inteira, uniram-se há anos para perseguir Lula esperando apenas que ele não fosse mais Presidente. Dilma teve um mandato inteiro e o começo de outro, Lula foi presidente por um bom tempo, se fosse perseguição esperar tanto seria de um planejamento que nem Arquivo X, quando tinha boas histórias em seus primeiros anos, conseguiu imaginar.

Quando audiências foram transmitidas para vilanizar ou santificar o juiz Sérgio Moro, o ridículo se ampliou. O processo judicial não é como jogo de futebol para se comentar com "veja como respondeu aquela pergunta", "perceba aquele tom de voz". Fazer perguntas e respondê-las é rotina do Judiciário tanto quanto acusar juízes de arrogância ao rejeitar perguntas e testemunhas, diariamente em qualquer vara judicial brasileira. Quem teve sua formação judicial por filmes e seriados precisaria de mais prudência nessa hora. 

Se o devido processo legal, se a presunção de inocência estivessem sendo violados: Lula está solto, mantém-se falando pelos cotovelos até a presente data, até viola a lei eleitoral diariamente já se declarando candidato antes do período que a legislação permite sem ser punido por isto (se houvesse perseguição política, partir deste ponto seria bem fácil).

Para todos que gritam no PT que não há provas, espero que tenham lido o processo e lembrem que a acusação imobiliária contra Lula é muito parecida com aquela contra os infames Bolsonaros e seus imóveis... Sedentos por punir um, absolvem outro só por ser quem é, mas os adversários igualmente míopes fazem o mesmo.

Ser quem é não torna ninguém acima das leis e do julgamento por suspeitas da prática de crimes. Se assim fosse, lembremos que é fácil encontrar em vídeo quando Lula mostrou-se ofendido por acusações contra José Sarney dizendo que ele não merecia ser tratado como um homem comum. Pelo jeito era preparação para a própria defesa. 

Tenho posição sobre planos de governo, ideias políticas, discursos mas sobre a técnica jurídica cabe apenas examinar se o processo seguiu o que a lei exige sabendo que o Direito não é ciência exata e que, quando não ocorrer o que eu gostaria, pode ser apenas a escolha entre alternativas de aplicação da lei de um julgador, que neste caso é em plenário uma coletividade de pessoas. Então, quem sataniza Sérgio Moro pode começar a investigar o passado de cada desembargador do TRF que julgará Lula e, mais tarde, em seus recursos contra a condenação caso ela venha, o que fez na vida privada cada Ministro do STJ. Pelo menos poderão se divertir com fofocas da vida alheia já que a reflexão política madura exige mais esforço. Depois, procurem no Google o significado de argumento ad hominem.

No dia 13 (bem pensado sendo o PT escolherem esse dia), foi lançada a campanha Em Defesa da Democracia e de Lula. Uma grande vergonha, pois mostra que para o partido as duas categorias têm o mesmo peso. A arrogância do ex-presidente e de parte daqueles que o apoiam, pelo menos quem organiza tais campanhas, não para por aí. Afinal declaram que Eleição Sem Lula É Fraude. Não há como apoiar lucidamente que não possa ser investigado. Qualquer cidadão pode. Do mesmo modo, o Partido dos Trabalhadores, sendo uma das maiores legendas do país, com grandes representantes em todos os estados, com experiência administrativa em prefeituras, governo de estados e na presidência da República pode, sim, ter eleição sem Lula, com outra tendência interna tendo voz, com outras lideranças tendo oportunidades para o partido se oxigenar, respirar, pensar diferente.

Eleição sem Lula é uma possibilidade do mesmo modo que sem qualquer outro cidadão que responda a processos criminais. Esclareça na justiça o que for necessário sem alegar perseguição, defenda-se, em vez de, por discordar de provas, afirmar que elas não existem e ficar chamando os juízes de meninos. Se continuar assim, não será eleição sem Lula que será fraude mas o próprio Lula, como falso messias com contínua mania de perseguição.

É curioso quantos que o apoiam acima das leis, mas até pouco tempo atrás celebravam a Lei Ficha Limpa. Ela impede que políticos condenados por um colegiado (no caso, o TRF caso o condene) por crimes relacionados aos seus mandatos não possam se candidatar. E para quem reclama da velocidade do julgamento, deve reclamar do Estatuto do Idoso, que dá preferência quando o réu tiver mais do que 70 anos. 

É justo defender que Lula seja candidato. É abusivo contra a democracia EXIGIR que ele tenha que ser absolvido por pressão política sobre o Judiciário apenas porque ele significaria muito para aqueles que o defendem. Estamos ainda aprendendo o que é uma democracia. Vejo constantemente, em países com democracias maduras, dirigentes políticos renunciarem diante de denúncias. No Brasil, mesmo condenados exigem ser candidatos.

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sábado, 13 de janeiro de 2018

O que fazer com abusadores sexuais de Hollywood

A entrega dos prêmios Golden Globe chamou a atenção pela teatralização do que ocorria há semanas em Hollywood. Como comentado no fim do ano neste blog, foi marcante no ano passado como denúncias de abusos sexuais explodiram. Um infame manifesto de mulheres artistas francesas em defesa da paquera até surgiu, como se os atos de homens expondo a genitália, tentando arrombar portas de hotéis, exigindo cenas de sexo para ver atrizes nuas, ameaçando suas carreiras se não fizessem sexo oral, além de estupros e estupros pudessem ser chamados de paquera.

Mas o que fazer com eles é uma questão relevante que se divide em duas, ambas difíceis. De um lado, como ficam como profissionais e cidadãos após as denúncias. Por outro lado, como ficam suas obras.

À primeira questão, é preciso considerar que houve denúncias por vezes de pessoas que se mantiveram anônimas ou que disseram apenas que atos impróprios ocorreram. Carreiras podem estar sendo apagadas e pessoas marcadas à moda medieval sem direito de defesa. Temos as confissões de Harvey Weinstein e Kevin Spacey, com denúncias formais com detalhes contra casos mais recentes que se mantém vagos. É desagradável lembrar em situações tão constrangedoras, sobre atos tão desumanos, mas todos têm direito de defesa e aqueles que estão alegando inocência podem não ter feito exatamente o que são acusados de ter feito. Muitas denúncias são de décadas atrás em meio a bebidas, drogas, por isso, quando alguém afirma que não lembra talvez não lembre mesmo, mas talvez sequer tenha feito. Para isto, todos nós defendemos contra ditaduras a democracia e o devido processo legal. Então, poderiam, ou mesmo deveriam, continuar trabalhando, enquanto aguardam julgamento... é algo difícil de pensar, mas tem coerência com o que queremos para uma sociedade justa.

Pensemos em suas obras, uma reflexão bem distinta mas correlata. Bem relacionada mesmo, afinal tenho visto críticos ao liberalismo lembrando que John Locke enriqueceu com o tráfico de escravos e Karl Marx teria tido um filho com a babá dos seus filhos. Até que ponto o Ad Hominem é fundamental... consideremos suas obras a partir da vida privada e daremos mais importância a revistas de fofocas como formadoras de opinião. Se quero conhecer ideias, formas de ver o mundo por meio de correntes teóricas ou de filmes, não faria diferença examinar antes a vida privada de cada um envolvido para saber se merecem ser vistas. Como fiscalizar algo assim é impensável.

Não faço ideia do mesmo modo que sei que há pessoas íntegras acima de qualquer suspeita com quem já convivi que eu não leria nada que escrevem enquanto há canalhas com bons livros. Como diria um técnico de futebol sobre a escalação de jogadores festeiros para seu time, não estamos escolhendo maridos para nossas filhas. Não estamos atrás de amigos, não precisamos admirar as pessoas, mas se houver méritos em suas obras a vida privada e a vida pública precisarão ser vistos com racionalidade, separadamente.

Talvez isso seja mais fácil em estudos teóricos, mas reconheço que vejamos caso a caso no cinema. Afinal, diretores e, principalmente, atores, levam a reações emocionais e envolvimento simpático com o rosto de alguém que possa ter feito algo terrível pode gerar tanto desconforto quanto assistir a um filme ruim. Então, que cada um neste sentido siga o que o coração mandar. Porém, em caso de conflitos de ideias, lembremos que se não formos mais tão jovens seria preciso mudar de ideia sobre o que sentimos sobre obras passadas daqueles artistas. Talvez separar as coisas seja mais prático. Não serão nossos amigos, não precisamos admirá-los como seres morais, mas neste sentido quantas seriam as pessoas que realmente conhecemos...

Fiquei incomodado com críticas a filmes em que as obras foram analisadas a partir de problemas de bastidores e não de acordo com o que eu poderia ver no filme. Do mesmo modo, pensar no que faz cada ator do elenco mistura obra de ficção e ideias para o mundo (vida pública) com práticas repugnantes na intimidade (vida privada). E se pensar em dar dinheiro a bandidos, mais cuidado ainda! Afinal, atores já foram pagos e os filmes terão a bilheteria de que precisam com ou sem você. É tão consistente quanto boicote a marcas e empresas; teriam que atingir todos seus fornecedores, empresas compradas por aquela que condenamos e, no limite, pensar para boicote em todos os produtos chineses no mundo por partirem de uma ditadura; você conseguiria?


Assim, espero que continuem afastados da indústria de cinema aqueles que praticaram atos repulsivos, que todos possam se defender dando sua versão dos fatos, sem misturar paquera com violência sexual e assistirei aos filmes que quiser admirando o que vi, não quem fez, que ídolos sempre vêem com pés de barro.

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